A Coalizão Negra por Direitos enviou um manifesto ao governo federal pedindo que o Brasil apoie uma proposta em discussão na Organização das Nações Unidas (ONU) que pode classificar a escravidão transatlântica como o mais grave crime contra a humanidade.
A iniciativa respalda uma resolução apresentada pela República de Gana na ONU, que busca reconhecer oficialmente o tráfico transatlântico e a escravização de africanos como um crime de extrema gravidade na história da humanidade.
Segundo a organização, a medida pretende ampliar o debate internacional sobre memória histórica e reparações relacionadas à escravidão. No manifesto, a Coalizão afirma que o sistema escravista teve impacto profundo na formação do mundo contemporâneo.
“A escravidão transatlântica constituiu um sistema global de violência, exploração e desumanização que estruturou a formação do mundo moderno. Milhões de africanos foram sequestrados de suas terras, transportados à força através do Atlântico e submetidos a regimes brutais de exploração econômica e dominação racial”, diz um trecho do documento.
A proposta foi anunciada pelo presidente de Gana, John Dramani Mahama, durante o debate geral da 80ª Assembleia Geral da ONU, realizado em setembro de 2025. A expectativa é que o texto seja debatido pelos países-membros em 25 de março deste ano. Se avançar, a resolução pode representar uma mudança no tratamento diplomático internacional sobre o legado da escravidão.
O manifesto divulgado pela Coalização Negra por Direitos destaca que o Brasil ocupa posição central nesse processo histórico. O país foi o que mais recebeu africanos escravizados no mundo e manteve o sistema escravista por mais de três séculos. Nesse período, a economia soi sustentada pelo trabalho compulsório da população negra.
De acordo com a Coalizão Negra, os efeitos dessa ausência de políticas ainda são percebidos atualmente. A organização aponta que desigualdades raciais em indicadores como renda, educação, acesso a oportunidades, violência e representação política refletem esse legado histórico.
Nas últimas décadas, o debate internacional sobre a escravidão ganhou espaço em organismos multilaterais. Um dos marcos citados é a Conferência Mundial contra o Racismo, realizada em Durban, em 2001, que reconheceu a escravidão e o tráfico transatlântico como tragédias históricas de grande magnitude e incentivou os países a enfrentarem seus efeitos estruturais.
Caso seja aprovada, a resolução poderá fortalecer discussões internacionais sobre reparações históricas, ampliar iniciativas de educação sobre o legado da escravidão e incentivar a cooperação política entre países africanos e comunidades da diáspora.
Nesse contexto, a Coalizão defende que o Brasil tenha papel ativo nas discussões. “O país abriga a maior população afrodescendente fora do continente africano e mantém relações diplomáticas históricas com países africanos”, destaca trecho do manifesto.
Para a organização, uma eventual abstenção do Brasil ou de países latino-americanos com histórico ligado à escravidão poderia representar uma perda política no debate internacional.
A aprovação da resolução depende do apoio de um número significativo de países na ONU. Segundo o manifesto, nações da América Latina e do Caribe têm responsabilidade particular nesse processo por terem sido territórios centrais do sistema escravista atlântico.
Amanda S. Feitoza
Jornalista formada pela UnB, com passagens pela Secretaria de Segurança Pública do DF, pelo Instituto Federal de Brasília (IFB) e pela Máquina CW. Entusiasta nas áreas de cultura, educação e redes sociais, integra a equipe do CB-Online.
Fonte: Correioweb