Em março de 1986, o RPM foi chamado às pressas para uma reunião na CBS. A gravadora tinha duas notícias a dar: uma boa e outra ruim. A boa: a música mais tocada nas rádios AM e FM de todo o país era London London, versão do RPM para a canção que Caetano Veloso tinha composto no exílio. A ruim: a gravadora não estava lucrando nenhum cruzado pela balada cantada por Paulo Ricardo e tocada ao piano por Luiz Schiavon porque o que estava tocando era uma gravação feita num show da banda. O que fazer?
Uma hipótese foi gravar London London em estúdio e incluí-la no disco Revoluções por Minuto (1985) como faixa-bônus. Os executivos da gravadora, porém, concordaram que os fãs que já tinham comprado as 400 mil cópias do LP não aprovariam a decisão. Outra possibilidade foi lançar um compacto simples ou duplo com as músicas inéditas. Acontece que a indústria fonográfica brasileira já não fabricava mais compactos simples ou duplos, só LPs.
Na dúvida, a CBS optou por gravar o show e lançar um disco ao vivo. “Conseguimos estourar uma música que não tinha sido gravada”, espanta-se Paulo Ricardo, durante esta entrevista concedida em sua casa, no Rio de Janeiro. “Foi um fenômeno metalinguístico: o álbum Rádio Pirata ao Vivo nasceu da versão pirata de uma música”. “London London foi a fagulha que detonou a explosão”, arremata Fernando Deluqui. “Topamos gravar o álbum meio a contragosto. Ninguém imaginava a repercussão do público.”
Do álbum de estreia, entraram cinco canções: Revoluções por Minuto, A Cruz e a Espada, Olhar 43, Estação no Inferno e Rádio Pirata. Todas as músicas eram de autoria da dupla Paulo Ricardo (baixo e voz) e Luiz Schiavon (teclados). Eles são, ao lado de Fernando Deluqui (guitarra), os fundadores do RPM. O último a ingressar na banda foi Paulo Pagni (bateria). Não por acaso, ele sequer aparece na capa do disco Revoluções por Minuto.
Antes dele, o grupo teve dois bateristas: Moreno Júnior, que foi dispensado por ser menor de idade, e Charles Gavin, que trocou o RPM pelos Titãs. “Meu quarto foi o primeiro estúdio do RPM. Fazíamos uma barulheira danada. O vizinho chamou a polícia várias vezes”, relata Moreno. “No começo, fiquei triste com a minha saída. Chorei muito. Mas, depois, entendi o motivo. Não houve briga, nem guardo mágoa. Somos amigos até hoje.”
Rádio Pirata Ao Vivo: as músicas, a gravação e outros caminhos
Além das cinco releituras, o álbum Rádio Pirata ao Vivo contou com duas inéditas, Alvorada Voraz e Naja, e duas regravações, London London e Flores Astrais, do Secos & Molhados. De quebra, ainda trazia uma música incidental: Light My Fire, do The Doors. “Durante Rádio Pirata, a banda tocava o que queria: de David Bowie a Led Zeppelin. Algumas versões duravam 20 minutos. Era a deixa para ir ao banheiro”, diverte-se Paulo Ricardo.
Selecionado o repertório, o show foi gravado nos dias 26 e 27 de maio no Palácio das Convenções do Anhembi (SP) e lançado no dia 28 de julho de 1986. “Na minha cabeça, cantar numa banda de rock era um ofício como outro qualquer”, minimiza Paulo Ricardo. “Uns escavam diamantes em minas subterrâneas. Outros consertam satélites no espaço sideral. Eu acordava, tomava café, escovava os dentes e ia para o estúdio, compor música e gravar disco.”
No dia 3 de maio de 1985, quatro meses antes de o RPM cair na estrada com a turnê Rádio Pirata ao Vivo, a banda se apresentou no Morro da Urca, no Rio de Janeiro. Por causa de um temporal de proporções bíblicas, apenas 103 espectadores assistiram ao espetáculo. Ney Matogrosso foi um deles. Quando o empresário Manoel Poladian perguntou que banda de rock ele poderia contratar, o cantor não precisou de muito tempo para responder: RPM. Além do próprio Ney, Poladian era o empresário de Roberto Carlos, Rita Lee e Maria Bethânia, entre outros.
“Quando assisti ao show do RPM no Madame Satã, em São Paulo, foi uma decepção. No palco, os quatro integrantes eram carismáticos, mas muito amadores”, avalia Poladian. “Voltei a procurar o Ney, que se propôs a dirigir o show dos rapazes. Perfeccionista, pediu três meses de ensaios. Foi quando aluguei o Teatro Bandeirantes”, conta.
À procura de discos voadores: gravação pirata de ‘London London’ estoura
A ideia de gravar London London partiu do próprio Paulo Ricardo. Durante os ensaios, Ney Matogrosso sugeriu que a banda tocasse algo intimista. Com exceção de A Cruz e a Espada, o repertório era muito pesado. A princípio, Paulo Ricardo cogitou Saudade dos Aviões da Panair (1975), de Milton Nascimento e Fernando Brant. Ou Ciúme (1985), do Ultraje a Rigor. Por fim, bateu o martelo: London London (1971), de Caetano Veloso.
A escolha não foi aleatória: Paulo Ricardo morou na capital inglesa por seis meses, em 1982. Na época, trabalhava como correspondente da revista Somtrês. Entre outros trabalhos, assinou revistas-pôsteres de bandas como The Rolling Stones, Queen e Kiss. De lá, Paulo Ricardo se correspondia com Luiz Schiavon, que conheceu em 1978. Os dois amigos chegaram a ter um grupo de rock progressivo, o Aura, que durou cerca de um ano e meio.
“Morar em Londres na década de 1980 era como viver em outro planeta. Não havia celular ou internet. Meu único vínculo com o Brasil era uma fita-cassete com algumas músicas brasileiras, como London London”, recorda Paulo Ricardo. “Além disso, o RPM era uma banda de rock com repertório autoral. Gravar London London era uma maneira de cantar em inglês sem fazer cover de banda gringa.”
A versão de London London que estourou nas rádios do Brasil inteiro foi gravada no dia 5 de outubro de 1985, durante o festival Atlântida Rock Sul, no Gigantinho, em Porto Alegre (RS). Além do RPM, a edição daquele ano contou com Léo Jaime e Paralamas do Sucesso. “Era um mini Rock in Rio”, compara Paulo Ricardo.
Na hora de propor outro cover para o show, o vocalista sugeriu Flores Astrais. Com letra de João Apolinário e música de João Ricardo, fazia parte do segundo álbum do Secos & Molhados, de 1974. O trio era formado por Ney Matogrosso, João Ricardo e Gerson Conrad. “Estava viajando quando peguei o jornal e li que o RPM tinha gravado uma música chamada Flores Astrais. ‘Que falta de imaginação!’, pensei. Quando descobri que se tratava da mesma música, fiquei felicíssimo”, recorda João Ricardo. “Há muitos covers do Secos & Molhados por aí. Um melhor que o outro. O que me deixa feliz é que eles não copiam as versões originais. Fazem coisas fantásticas.”
Problemas no paraíso: capa, ego e empecilhos
Para produzir o álbum, a CBS chamou Marco Mazzola. Ele tinha produzido, entre outros artistas da MPB, Gal Costa, Chico Buarque e Elis Regina. “Meu maior mérito foi transformar o Rádio Pirata ao Vivo no primeiro disco de rock digital do País”, avalia o produtor. “Dos discos que produzi no Brasil, foi o de maior vendagem. Mais do que RPM, só mesmo Paul Simon [The Rhythm of the Saints, de 1990], que vendeu sete milhões de cópias”.
Quem ficou triste com a decisão da gravadora foi Luiz Carlos Maluly. Foi ele quem produziu o álbum de estreia da banda, Revoluções por Minuto. “Foi uma punhalada nas costas”, descreve. “Na época, as fábricas tiveram que parar a produção do disco de estúdio para priorizar o álbum ao vivo. Aquilo me prejudicou bastante. Dizem por aí que o RPM só estourou depois de gravar o Rádio Pirata ao Vivo. Não é verdade. A banda já era um sucesso.”
Rádio Pirata ao Vivo teve design de Alex Flemming, o mesmo do primeiro disco, e fotografia de Frederico Mendes. O convite para Flemming assinar a capa de Revoluções por Minuto partiu de Schiavon. “Éramos vizinhos de porta, na Rua Cardeal Arcoverde, em Pinheiros”, recorda. Ele deu à luz tanto a capa do LP, feito de serigrafia a partir de foto de Rui Mendes, quanto o logotipo da banda. “Da segunda vez, a CBS criou tanto empecilho que não fiz a capa que eu queria. Fiquei tão chateado que não considero a capa de Rádio Pirata ao Vivo de minha autoria”, queixa-se.
Quem também não gostou do resultado foi Frederico Mendes. Se dependesse dele, a capa do LP seria outra: Paulo Ricardo de costas. “Quando apresentei a minha proposta, um dos integrantes da banda, de cara fechada, ameaçou: ‘Se essa for a capa do disco, eu saio do RPM’. Dali a pouco, outro integrante falou: ‘Eu também’. Diante do clima pesado, Paulo Ricardo tentou acalmar os ânimos: ‘Vamos botar todo mundo na capa!’”. A foto escolhida por Mendes ilustrou a capa do compacto promocional de London London que a gravadora enviou para as rádios.
Agenda cheia de milhões de discos vendidos
Ao todo, o RPM fez 270 shows em 15 meses. É o que dizem os jornalistas Arthur Dapieve, autor de BRock – O Rock Brasileiro dos Anos 80 (Editora 34), e Ricardo Alexandre, de Dias de Luta – O Rock e o Brasil dos Anos 80 (Arquipélago). O primeiro show aconteceu no dia 16 de setembro de 1985, no Teatro Bandeirantes, e o último, em 12 de dezembro de 1986, no Ginásio do Ibirapuera, ambos em São Paulo.
“Como diretor do show, Ney Matogrosso pensou em tudo: cenário, iluminação, figurino… A inspiração dele foi o filme Blade Runner – O Caçador de Androides (1982), de Ridley Scott”, explica o jornalista Luiz Felipe Carneiro, que incluiu Rádio Pirata ao Vivo no livro Os 50 Maiores Shows da História da Música Brasileira (Belas Letras). “Com direito a gelo seco e raio laser, o padrão do show do RPM era internacional.”
Entre um show e outro, a banda tocou em ginásios e estádios pelo Brasil afora. Só no Rio de Janeiro, o RPM se apresentou, entre outras casas de espetáculo, no Ginásio do Maracanãzinho, nos dias 9 e 10 de maio e 7 e 8 de junho, e na Praça da Apoteose, no dia 27 de setembro. Já Manoel Poladian cita outros números: a turnê teria contabilizado, segundo o empresário da banda, 280 shows em 10 meses – média de 28 por mês!
“De alguns shows, eu não consigo me esquecer. Os isqueiros acesos no Maracanãzinho (RJ) e no Ibirapuera (SP), por exemplo, são inesquecíveis. Hoje em dia, são celulares, né?”, diverte-se Deluqui. “Também não me esqueço de Belém (PA), quando a gente teve que andar de carro-forte; de Teresina (PI), quando os fãs invadiram uma rádio pelo teto do estúdio, e do Recife (PE), quando fomos recebidos por uma multidão no aeroporto.”
Tão controverso quanto o número de shows, só mesmo o de álbuns vendidos. Segundo Dapieve e Alexandre, Rádio Pirata ao Vivo bateu a marca de 2,2 milhões de discos. “Chegou às lojas com 500 mil cópias vendidas”, afirma o autor de Dias de Luta. Já Mazzola fala em 3 milhões. Discordâncias à parte, os três concordam em uma coisa: o RPM foi o maior fenômeno do rock nacional de todos os tempos. “Beatlemania à brasileira”, resume Dapieve.
No auge do sucesso, a banda chegou a ter álbum de figurinha. Outros projetos, porém, se perderam no caminho. Um dos mais curiosos é o do longa-metragem É Melhor Viver. O roteiro do filme de ficção seria de Marcelo Rubens Paiva, autor de Ainda Estou Aqui (2015), e a direção, de Sérgio Rezende.
A vida segue pós-RPM, sem deixar o RPM para trás
Entre reencontros e despedidas, o RPM gravou, com a formação completa, mais dois álbuns de estúdio, Quatro Coiotes (1988) e Elektra (2011), e um ao vivo, MTV RPM 2002 (2002). Por diferentes razões, Luiz Schiavon e Paulo Pagni não participaram de Paulo Ricardo & RPM (1993), e Paulo Ricardo de Sem Parar (2023). Dois integrantes do RPM já morreram: Paulo Pagni, em 22 de junho de 2019, e Luiz Schiavon, em 15 de junho de 2023.
Atualmente, Paulo Ricardo excursiona com três shows: XL 40 Anos, Rock Popular e Voz, Violão & Rock’n’roll. Ano passado, ele lançou o EP Reinventar, com seis canções inéditas. “Do que eu mais sinto falta? Dos ensaios”, suspira. “Fizemos muita música nas passagens de som. Certa vez, a corda do Deluqui arrebentou e, enquanto ele trocava, eu compus Alvorada Voraz. Compor é como pescar, já dizia Keith Richards. Uma hora, a música morde o anzol!”.
Fernando Deluqui também está na estrada. Ao lado de Fábio Pelissioni (baixo e voz), Kiko Zara (bateria) e Tato Andreatta (teclados), ele encabeça o projeto RPM – O Legado. “Se pudesse voltar no tempo, tentaria não repetir os erros. Mas, ninguém evolui sem errar”, filosofa. “Na maior parte do tempo, nosso convívio era agradável. Não havia desgaste. Só bagunça e risada. Do que eu não gosto de lembrar? Bem, prefiro me ater às boas lembranças”, sorri.
Estadão Conteúdo
Fonte: Jornal de Brasília