Dez anos após a morte de Vander Lee, a obra do cantor e compositor mineiro ganha uma nova leitura no palco do Clube do Choro. O show, conduzido por seu irmão Marcos Catarina revisita um repertório marcado pelo diálogo entre a música romântica, o samba, a balada e o rock, além de letras que observavam o cotidiano e diferentes aspectos da vida brasileira.
Nascido Vanderli Catarina, em Belo Horizonte, em 3 de março de 1966, Vander Lee cresceu no bairro Olhos D’Água e iniciou a carreira musical na década de 1980, apresentando-se em bares da capital mineira. Antes de se dedicar exclusivamente à música, trabalhou como office-boy, gandula e goleiro do Atlético Mineiro.
O primeiro registro de suas composições ocorreu em 1986, quando gravou uma fita demo. No ano seguinte, levou o repertório ao Teatro Francisco Nunes e participou de festivais. Em 1996, conquistou o segundo lugar no Festival Canta Minas com a música “Gente não é cor”, resultado que favoreceu a gravação de seu primeiro disco independente. No início da carreira, o artista assinava como Vanderly, nome que mais tarde foi alterado para Vander Lee.
Ao longo da carreira, o compositor lançou nove discos, entre trabalhos de estúdio e registros ao vivo, e consolidou um repertório que ultrapassou fronteiras de gênero. Canções como “Românticos”, “Iluminado” e “Esperando Aviões” tornaram-se conhecidas do público e ajudaram a estabelecer sua assinatura como compositor. Sua produção também foi interpretada e compartilhada por nomes como Zeca Baleiro, Elza Soares, Rita Ribeiro, Emilinha Borba, Leila Pinheiro e Nando Reis.
Para Marcos Catarina, irmão de Lee e também artista, tocar esse repertório dez anos depois da morte dele é uma maneira de impedir que sua produção fique restrita à memória de quem o acompanhou em vida. “Revisitar a obra do Vander Lee é sempre trazê-lo para a atualidade, é trazê-lo para novas plateias, para novos ouvidos. Passados dez anos, a gente percebe que as músicas continuam vivas, atuais, necessárias”, afirma.
A escolha do Clube do Choro para receber o tributo também tem significado particular para o intérprete. “Então fazer esse tributo agora é garantir que a obra não fique só na saudade, mas que continue circulando, encontrando gente nova. Fazer isso no Clube do Choro, que sempre foi minha casa aqui em Brasília, tem um simbolismo muito grande”, explica.
Entre as músicas que permanecem especialmente ligadas à memória de Marcos estão “Desejo de Flor” e “Estrela”. Esta última dá nome ao espetáculo e ganhou projeção também na voz de Maria Bethânia. “Tem sido uma das músicas que a gente mais tem cantado nesses últimos dez anos de tributo”, conta.
A homenagem também pretende ampliar a percepção sobre a obra de Vander Lee. Embora algumas de suas baladas tenham se tornado particularmente populares, sua produção percorreu temas e formas que vão além do repertório romântico. Para Marcos, apresentar essa dimensão é fundamental para que o público mais jovem tenha contato com a amplitude do compositor.
“Eu gostaria que as novas gerações descobrissem o Vander Lee para além do romântico. Todo mundo conhece baladas como ‘Esperando Aviões’, mas o Vander era um cronista do cotidiano, um sambista, um pensador da canção brasileira”, afirma.
A produção de Vander Lee também esteve relacionada a questões sociais e à própria experiência de vida em Belo Horizonte. Suas letras abordaram temas como política e negritude, ao mesmo tempo em que mantiveram uma atenção particular às situações cotidianas e às relações humanas. Para Marcos, essa combinação entre poesia e elaboração musical ajuda a explicar a permanência do repertório.
“Ele falava de política, de negritude, de Belo Horizonte com uma poesia e uma sofisticação harmônica que está fazendo muita falta hoje. Fazer esse tributo é também apresentar esse legado bonito para quem não teve a oportunidade de conhecê-lo em vida”, completa.
Vander Lee morreu em Belo Horizonte, em 5 de agosto de 2016, aos 50 anos. Sua trajetória, interrompida após uma emergência cardíaca, deixou uma obra que continua sendo revisitada por intérpretes e pelo público. Dez anos depois, o tributo no Clube do Choro propõe justamente esse movimento: transformar a lembrança em circulação e manter as canções do compositor em contato com novos ouvintes.
Serviço
Show “Estrela — Tributo a Vander Lee” por Marcos Catarina
Local: Clube do Choro de Brasília
Data e horário: 28 de agosto, sexta-feira
Ingressos pelo link
Fonte: Jornal de Brasília