09/05/2026 – 12:00
Shawn Xu foi presidente da Chery do Brasil por três anos e meio. Agora, ocupa a principal cadeira da Omoda & Jaecoo, como CEO global. Em uma entrevista para a Motor Show e IstoÉ Dinheiro, além de um restrito grupo de jornalistas brasileiros na chinesa Wuhu, onde fica a sede da Chery Automobile, dona da marca, o executivo falou sobre os planos para o Brasil.
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Por ora, Xu ainda não confirmou se o local da operação da fábrica de sua parceira na China, a Jaguar Land Rover — de quem acaba de adquirir a marca Freelander –, será em Itatiaia, no Rio de Janeiro.
A unidade está subutilizada há anos e deve ser o destino da produção nacional da Omoda & Jaecoo. Poderia também abrigar a Lepas, outra marca confirmada para o mercado brasileiro (e, por que não?, talvez a própria Freelander).
Apesar de não confirmar a localização da fábrica brasileira, e nem a eventual presença de outras marcas do grupo na linha de produção, ele revelou que a produção no Brasil começa no início de 2027. O mercado brasileiro é “grande e difícil”, mas para a marca ter uma fábrica aqui é “obrigatório”. Ademais, a unidade também servirá de hub de exportação para o mercado argentino.
Em meio à conversa, o executivo indicou, ainda, que vai priorizar os modelos HEV e PHEV, ou seja, que têm motor a combustão e baterias (embora funcionem de forma distinta). Omoda 5 e Jaecoo 5 devem ser as prioridades de fabricação local.
Xu destacou que, como o Omoda 5 está indo muito bem, a produção deve se iniciar justamente com o modelo, somado ao Jaecoo 5. Este segundo une características de ter um estilo Land Rover e ser “pet-friendly” (Xu destaca que muitos brasileiros não querem filhos, e gostam de cachorros). Confira:
Sobre os rumores da Omoda & Jaecoo assumir a fábrica da Land Rover, no Rio de Janeiro, o sr. pode dizer se as conversas ocorrem e qual será o primeiro modelo?
Eu entendo bem as necessidades do mercado brasileiro, pois trabalhei nele por três anos e meio. É um mercado grande e difícil, por causa do trabalho de engenharia para adaptação dos carros serem flex e para fazer uma fábrica. E consideramos que ter uma unidade produtiva no Brasil é obrigatório. Quando pensamos na Omoda Jaecoo no Brasil, estudamos diferentes opções: construída por nós ou comprada. Consideramos todas as opções, incluindo a que você mencionou. Escolhemos uma, e não posso dizer exatamente agora por questões de confidencialidade, mas vai acontecer em breve. Quando finalizado o acordo, avisarei a vocês primeiro.
O Omoda 4 será o modelo de entrada da marca. Globalmente, ele terá versões elétricas, híbridas e a combustão, mas cada mercado tem especificidades. Como o senhor enxerga qual seria o produto correto para o Brasil?
O Omoda 5, já comercializado no Brasil, está vendendo bem, e pode chegar a duas mil unidades neste mês. Pode ser o modelo número um entre os HEV. Esse é um SUV compacto, como os brasileiros gostam. Ele tem uma personalidade única, ao vê-lo todos sabem que é da Omoda. Nós chamamos o HEV de super-híbrido porque, em muitos híbridos, o consumo é bom, mas falta potência em altas velocidades. Acima de 100 km/h, o motor fica barulhento. E os jovens querem potência. Eles querem chegar antes dos outros, querem baixo consumo e potência. Precisamos de ambos e queremos dar a melhor experiência para o público ao volante. Por isso as pessoas gostam dos HEVs. Mas nosso BEV [modelos a bateria] também é muito potente e está vendendo muito bem em mercados como Tailândia, Indonésia e na Europa, no Reino Unido. Então também podemos ter um elétrico para o Brasil, pois há uma grande demanda. [vale lembrar que o Omoda 4 foi lançado no Salão de Pequim há poucos dias]
O Jaecoo 5 tem gerado muito interesse no Brasil. Ele seria uma opção mais interessante para começar a produção local, já que o preço é mais alto e entrega maior margem de lucro?
Assim que a nossa fábrica estiver disponível, vamos considerar os produtos de alto volume, eles serão nossa primeira prioridade para fabricação nacional. Isso inclui o Omoda 5 e o Jaecoo 5. O Jaecoo 5 chamou muita atenção no Brasil, e em outros mercados, onde já é um grande sucesso, e acredito que também gostarão muito dele no mercado brasileiro. Ele é um carro com design estilo Range Rover, é compacto e tem boas características, como ser pet friendly. Eu morei no Brasil por mais de três anos e sei que muitas pessoas não precisam de filhos, só de pets. Por isso criamos um SUV que tem essa conexão melhor com os clientes.
O mercado brasileiro está acostumado a motores pequenos, 1.0 flex, tecnologias não tão avançadas quanto os HEV ou PHEV. A Omoda Jaecoo é uma empresa high-tech no Brasil. Podemos dizer que os produtos da Omoda Jaecoo sempre terão eletrificação no Brasil e veremos produtos 1.0 flex eletrificados?
Os híbridos e elétricos são o primeiro passo. O motor é importante, mas não é tudo. Vamos lançar motor a combustão no futuro próximo se os jovens gostarem, mas agora o híbrido, HEV e PHEV, é nosso foco. Temos motor especial, transmissão e bateria especiais para os híbridos. Não se trata de uma adaptação do motor tradicional para virar híbrido.
Mesmo que no futuro tenhamos motor a combustão, os híbridos serão essenciais em nosso portfólio. Sobre o motor 1.0 TGDI, nós temos esse motor na Chery, mas vamos comparar o que é mais econômico para o mercado brasileiro e ver a resposta local. Temos muitas opções, e veremos o que vamos escolher para os consumidores.
Quais características vocês consideram mais importantes para uma cidade sediar a fábrica e quando a decisão será tomada?
A Chery tem 24 fábricas no exterior. Temos fábricas em muitos mercados, incluindo o Brasil. Não é um problema fazê-las, é apenas um caminho; quando o mercado precisa, nós construímos. E rápido. Quando o mercado precisa, construímos uma fábrica em poucos meses. Somos rápidos. Não posso falar ainda, assinamos contrato de confidencialidade, mas ela estará pronta muito em breve.
Falaremos muito em breve sobre nossa decisão [relacionada ao Brasil]. Esperamos começar a produção no começo do ano que vem, então estamos nos apressando. É questão de sobrevivência. Normalmente leva-se dois anos para fazer uma unidade, mas queremos finalizar este ano e começar a produção no início do ano que vem. Estamos vendendo bem e queremos crescer.
Vocês pretendem entrar em outros segmentos no Brasil?
Já debatemos isso. Somos muito jovens. Três anos de China e um ano de Brasil. Para Omoda, teremos crossovers. Na Jaecoo, SUVs com pegada off-road. Hoje, é isso. Se no futuro o cliente precisar de algo diferente, podemos considerar, mas não agora. Provavelmente nos próximos dois anos não consideraremos outros segmentos até termos uma base sólida.
Quais são os planos para a América do Norte [Estados Unidos e Canadá]?
Eu acabo de vir da cerimônia de assinatura do acordo com o Canadá. Então, sim, teremos uma subsidiária naquele país ainda neste ano.
Em quantos países a Omoda Jaecoo quer estar presente até o fim de 2026?
Hoje temos 69 mercados em operação. Diferente da Chery, que usa muitos distribuidores, a Omoda & Jaecoo opera com subsidiárias próprias em grandes países, como Brasil, Austrália e Tailândia, Malásia… e também na Europa, na Espanha, na Itália, etc. Estamos crescendo rápido. Queremos chegar a cerca de cem mercados até o fim do ano que vem. Algumas subsidiárias chegarão em breve, como Alemanha e Argentina.
Sobre os modelos menores, como o Omoda 2 e o Jaecoo 3, quais são as possibilidades de chegarem ao Brasil, e com quais motores?
O Omoda 2 já estamos analisando com nossos parceiros [os concessionários viram estes dias]. A mídia ainda não verá porque está em um estágio inicial. Ele tem cerca de 4,2 metros. O Omoda 5 tem 4,5 metros e, o Omoda 4, tem 4,4 metros. Teremos versões elétricas (BEV), híbridas (HEV) e também a combustão. É um carro pequeno que cabe bem no mercado brasileiro. Teremos mais detalhes sobre ele em aproximadamente seis meses, e vocês poderão nos dizer se os brasileiros gostarão.
A fábrica brasileira será um hub de exportação para a Argentina?
Eu é que deveria dizer isso. Então a resposta é sim. Por isso preciso de uma fábrica nossa [localmente].
O Brasil é um país continental, mas tem poucos carregadores. Qual é o carro ideal para o Brasil, HEV ou PHEV? E vocês vão investir em estrutura de carregadores?
Vocês são quase tão grandes quanto a China, mas com menor população. E podem viver em grande parte dele. Eu morei perto de São Paulo. Em termos de infraestrutura, em cidades pequenas pode-se carregar o carro em casa. Não dá para comparar [os dois países nesse aspecto]: a China tem carregadores em qualquer lugar, mas no Brasil até dá para carregar bem [o veículo] em casa ou na rua.
Não planejamos investir em carregamento, não podemos comprar terras para fazer estações. Nosso negócio é automotivo. Mas as vendas de BEV vão bem, e o governo deve cuidar disso para as pessoas carregarem em casa. Além disso, os HEVs vão bem, e nossos PHEVs não precisam ser carregados. Eles estão uma geração à frente, e por isso não chamamos nossos carros de PHEV, mas de super-híbridos. Nos PHEVs convencionais a bateria ‘morre’ e o consumo [de combustível] fica pior do que em um carro a combustão, já que a bateria é pesada. Nos nossos super-híbridos, pode-se andar sem carregar o carro.
Fonte: IstoÉ Dinheiro