Sucesso mundial, série Ted Lasso expõe as desigualdades do futebol feminino
Sucesso mundial, série Ted Lasso expõe as desigualdades do futebol feminino

Sucesso mundial desde sua estreia, Ted Lasso deixou de ser apenas uma comédia sobre futebol para se transformar em uma série capaz de provocar discussões sobre liderança, oportunidades e desigualdade. A nova temporada confirma essa vocação ao abordar um dos principais problemas do futebol feminino: a reduzida presença de mulheres nos cargos de comando.

O tema ganhou uma análise de página inteira no The New York Times, que utilizou os acontecimentos do segundo episódio para discutir por que, mesmo com o crescimento das competições femininas, os principais clubes continuam preferindo homens para ocupar seus bancos de reservas.

Depois de passar três anos em Kansas City, Ted aceita o convite de Rebecca Welton e retorna à Inglaterra para comandar a recém-criada equipe feminina do AFC Richmond. O problema é que o time já possui uma treinadora: Alice Chilton, ex-jogadora cuja carreira foi interrompida por lesões no joelho e que se preparou para trabalhar à beira do gramado.

Alice tem experiência, qualificação e conhecimento do ambiente. Ainda assim, o cargo é entregue a Lasso, um homem que chegou ao futebol inglês sem conhecer algumas das regras básicas do esporte e sem as certificações tradicionalmente exigidas.

Quando o AFC Richmond contratou Ted pela primeira vez, sua falta de experiência fazia parte da piada. Agora, a mesma fórmula ganha um significado mais incômodo. Ao colocar um homem no lugar de uma mulher preparada, a série acaba reproduzindo uma situação muito presente no futebol real.

Dados citados na análise mostram que apenas 22% dos treinadores principais de 669 clubes, distribuídos por 86 ligas femininas, são mulheres. Na Copa do Mundo de 2023, somente 12 das 32 seleções eram comandadas por treinadoras. Na principal liga inglesa, apenas quatro dos 12 clubes possuem mulheres no comando técnico.

A contradição é evidente: as mulheres são protagonistas dentro de campo, mas continuam sendo minoria nos cargos de liderança.

Durante décadas, o futebol funcionou como uma escola informal para homens. Quando encerravam a carreira, jogadores encontravam estágios, academias, mentores e oportunidades como auxiliares. As mulheres não tiveram o mesmo caminho. Muitas ligas femininas sequer existiam ou encerravam suas atividades por falta de investimento.

A trajetória de Ted Lasso torna essa desigualdade ainda mais visível. Ele recebeu um grande emprego antes de estar preparado e ganhou o direito de aprender, errar e construir experiência dentro da elite. As mulheres, na vida real, geralmente precisam comprovar experiência antes mesmo de receber a primeira oportunidade.

A situação começa a melhorar. O número de mulheres com licenças de treinamento reconhecidas pela UEFA chegou a 25 mil em 2024, crescimento superior a 75% em oito anos. Ainda assim, permanece um círculo difícil de romper: para conseguir os melhores cargos, elas precisam de experiência; para ganhar experiência, precisam ser contratadas; e os clubes preferem contratar quem já passou por equipes importantes.

É nesse contexto que Alice Chilton se torna uma das personagens mais interessantes da nova temporada. Ela representa milhares de mulheres que conhecem profundamente o futebol, possuem formação e dedicação, mas continuam precisando provar que merecem oportunidades que muitos homens recebem sem apresentar as mesmas credenciais.

Talvez Ted reconheça essa contradição e se transforme no mentor de Alice. Afinal, sua maior qualidade nunca foi o conhecimento tático, mas a capacidade de acreditar nas pessoas e ajudá-las a desenvolver o próprio potencial.

Ao colocar esse conflito no centro da temporada, Ted Lasso expõe uma realidade que o futebol ainda não conseguiu superar: as mulheres já demonstraram que pertencem ao jogo, mas continuam enfrentando enormes dificuldades quando querem comandá-lo.

Fonte: Jornal de Brasília

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