Os Estados-membros da Organização Mundial da Saúde (OMS) iniciaram nesta segunda-feira (18), em Genebra, sua reunião anual em meio à preocupação com os surtos de hantavírus e ebola, além da incerteza provocada pelas saídas anunciadas dos Estados Unidos e da Argentina.
Embora o raro surto de hantavírus em um cruzeiro, que chamou a atenção mundial, não apareça oficialmente na agenda, o tema deve ocupar um lugar de destaque nas discussões, assim como o novo surto de ebola na República Democrática do Congo (RDC).
Os dois episódios “são apenas as crises mais recentes em nosso mundo, vítima de múltiplas turbulências”, advertiu o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus.
Ele acrescentou que “dos conflitos até as crises econômicas, passando pela mudança climática e pela redução da ajuda internacional, vivemos uma época difícil, perigosa e fonte de divisões”.
Por sua vez, o secretário-geral da ONU, António Guterres, declarou em uma mensagem em vídeo que “ao longo do último ano, os cortes na ajuda bilateral e multilateral desestabilizaram os sistemas de saúde e aprofundaram as desigualdades. Clínicas foram fechadas. Profissionais de saúde perderam seus empregos”.
Uma fonte diplomática, que pediu para não ser identificada, disse que seria interessante ver como a OMS utilizaria os dois surtos para “pressionar (Estados Unidos e Argentina) a não abandonarem” a organização.
Surie Moon, codiretora do Centro de Saúde Global do Instituto de Pós-Graduação de Genebra, disse à AFP que a crise do hantavírus ofereceu “uma ilustração clara da razão pela qual o mundo precisa de uma OMS eficaz, confiável, imparcial e com financiamento previsível”, acrescentou.
- Divisões –
A contínua divergência entre países ricos e países em desenvolvimento bloqueou, por exemplo, os avanços na peça-chave que falta no histórico tratado sobre pandemias de 2025 da OMS. Agora, analistas esperam que as negociações prossigam por mais um ano.
Também não está claro o que será decidido sobre as saídas anunciadas dos Estados Unidos e da Argentina.
O presidente americano Donald Trump entregou à OMS a notificação de retirada de seu país no primeiro dia de seu segundo mandato, em janeiro de 2025. O aviso tem prazo de um ano para ser efetivado. A Argentina aderiu à iniciativa americana pouco depois.
A OMS, cuja constituição não inclui uma cláusula de retirada, não confirmou nenhuma saída.
Os Estados Unidos reservaram o direito de abandonar a organização quando aderiram à OMS em 1948, com a condição de um aviso prévio de um ano, além de cumprir plenamente suas obrigações financeiras para o ano fiscal.
Embora o período de aviso prévio já tenha expirado, Washington ainda não pagou suas contribuições de 2024 e de 2025. O país deve quase 260 milhões de dólares (1,3 bilhão de reais).
Quando o conselho executivo da OMS se reuniu em janeiro, Israel apresentou uma resolução para aprovar a saída da Argentina — algo que se espera que os países debatam durante a assembleia —, mas nenhuma palavra foi citada sobre a saída dos Estados Unidos.
Diplomatas e observadores concordam que há um amplo consenso de que seria melhor manter uma zona cinzenta a respeito da saída dos Estados Unidos.
- Campanha de eleição –
A assembleia acontece enquanto começa o processo para a eleição, no próximo ano, de um novo diretor-geral da OMS. Nenhuma candidatura foi apresentada até o momento, mas alguns anúncios devem acontecer durante a semana.
A data limite para apresentação de cancidaturas está marcada para 24 de setembro.
Também estão sobre a mesa várias resoluções delicadas, incluindo textos sobre a Ucrânia, os territórios palestinos e o Irã, que podem provocar debates complexos.
Grande parte das discussões desta semana se concentrará em definir se deve ser iniciado um processo formal de reforma da chamada “arquitetura global da saúde”, uma série de organizações que nem sempre trabalham em conjunto.
O presidente de Gana, John Dramani Mahama, disse que “seis anos depois da última pandemia mundial, a de covid-19, a arquitetura de saúde mundial está se transformando rapidamente (…). Estamos assistindo ao fim de uma era e precisamos de coragem para construir uma nova”.
AFP
Fonte: Jornal de Brasília