O oportunismo de Jorge Jesus e a incógnita Neymar
O oportunismo de Jorge Jesus e a incógnita Neymar

A apresentação de Jorge Jesus como novo técnico da seleção de Portugal seguiu o roteiro previsível de quem conhece como poucos a arte de jogar para a plateia. Ao ser questionado sobre como seria sua relação com Cristiano Ronaldo, o treinador português não hesitou em recorrer ao nome de Neymar para demonstrar autoridade. Lembrou os tempos de Al-Hilal e disparou que teria dito ao brasileiro: “Tu finish” (você acabou).
A frase, de forte impacto retórico, carrega uma dose cavalar de oportunismo. Ao cravar o “fim” de Neymar em solo luso, Jesus quis mandar um recado claro a Cristiano Ronaldo sobre quem manda no vestiário, mas usou um alvo que hoje não tem como contestá-lo. Embora o atacante brasileiro esteja, de fato, na reta final de sua trajetória profissional, a declaração soou gratuita. Neymar e o futebol brasileiro nada têm a ver com o novo ciclo que se inicia na seleção de Portugal.
O que Jorge Jesus fez foi aproveitar-se do momento de extrema vulnerabilidade do camisa 10 para massagear o próprio ego e posar de sargento de ferro. Afinal, a realidade de Neymar hoje é complexa e se divide entre a melancolia e a incerteza, sobretudo após a queda precoce do Brasil nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026. O gol marcado na derrota por 2 a 1 contra a Noruega — o último da eliminação — corre o risco de se tornar, ironicamente, o ato final de uma carreira brilhante, mas que termina sem o ápice esperado.
Enquanto o mundo debate a fala do técnico luso, o futuro prático de Neymar se desenha na Vila Belmiro, sob uma densa névoa de dúvidas. Com contrato válido até 31 de dezembro deste ano, sua permanência no Santos para o segundo semestre é uma grande incógnita. Internamente, a diretoria do Peixe tenta demonstrar otimismo e confia no compromisso do craque para entrar em campo, mesmo diante de um cenário financeiro delicado.
O Santos deve mais de R$ 90 milhões a Neymar em direitos de imagem atrasados desde o ano passado. Para equalizar o estrago, o clube costurou um acordo para estender o pagamento dessa dívida até 2030. Embora a relação entre a cúpula santista e a NR Sports — empresa que gerencia a carreira do atleta — permaneça cordial, os bastidores fervem.
A grande pergunta que ninguém na Vila Belmiro consegue responder com certeza é: o que Neymar realmente quer fazer a partir de agora? Aos 34 anos, desestimulado pela frustração no Mundial e com a vida financeira mais do que resolvida, o atacante parece flertar com a aposentadoria definitiva. Resta saber se o Peixe conseguirá convencê-lo a dar um último suspiro nos gramados brasileiros ou se Jorge Jesus, mesmo agindo por puro marketing pessoal, acabou antecipando o ponto final de uma história que merecia um desfecho melhor.

A coluna na edição impressa do JBr

Fonte: Jornal de Brasília

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