A busca pelo hexacampeonato sempre foi o grande objetivo da Seleção Brasileira. Mas, após a estreia decepcionante diante do Marrocos, cresce a sensação de que o Brasil chegou a esta Copa não apenas correndo atrás da sexta estrela, mas também tentando defender um patrimônio histórico que começa a ser ameaçado pelos rivais.
O exemplo mais recente veio nesta terça-feira. Autor de dois gols na vitória da França por 3 a 1 sobre Senegal, Kylian Mbappé chegou a 14 gols em Copas do Mundo e ultrapassou Pelé, que marcou 12. O atacante francês fez questão de reverenciar o brasileiro após a partida. “Ele é o rei, o melhor”, resumiu. A homenagem foi elegante, mas o simbolismo é inevitável: mais uma marca ligada ao maior jogador da história passa a ser superada por uma nova geração de craques.
E Mbappé não é o único a ameaçar a coleção de recordes construída pelo futebol brasileiro ao longo de décadas. Nas primeiras rodadas desta Copa, outras marcas históricas da Seleção já começaram a balançar.
A Holanda igualou a maior sequência invicta da história dos Mundiais, marca que pertencia ao Brasil desde os bicampeonatos de 1958 e 1962. Os holandeses chegaram a 13 partidas sem derrota e agora dividem um topo que parecia inalcançável.
Como se não bastasse, a Alemanha ultrapassou o Brasil no ranking de gols marcados em Copas do Mundo. A goleada por 7 a 1 sobre Curaçao levou os alemães aos 239 gols em Mundiais, um a mais que a seleção brasileira. O detalhe é que o Brasil marcou apenas uma vez na estreia contra o Marrocos, justamente no momento em que a disputa por essa liderança histórica se tornou apertada.
São estatísticas que ajudam a medir a mudança de cenário. Durante décadas, o Brasil foi dono absoluto dos principais números da história das Copas. Títulos, gols, vitórias, craques e recordes formavam uma espécie de reserva histórica protegida pelo tempo. Hoje, porém, os concorrentes se aproximam cada vez mais.
E existe uma ameaça ainda maior. Caso a Alemanha conquiste o título mundial de 2026, chegará ao quinto troféu e igualará o Brasil como maior campeão da história da Copa do Mundo. Pela primeira vez em muitos anos, a liderança brasileira nesse ranking parece correr um risco real.
O simbolismo é ainda mais forte porque os alemães continuam associados ao capítulo mais doloroso da história recente do futebol brasileiro. A goleada sobre Curaçao reavivou imediatamente as lembranças do 7 a 1 sofrido pelo Brasil na semifinal de 2014. Nas redes sociais, os memes reapareceram com velocidade.
Um dos mais compartilhados ironizava que Curaçao já poderia dizer que alcançou o mesmo feito do Brasil em uma Copa do Mundo: perder por 7 a 1 para a Alemanha.
É claro que recordes não entram em campo nem decidem partidas. Mas ajudam a contar a história do futebol. E a história mostra que o Brasil sempre foi a principal referência das Copas do Mundo. O problema é que, enquanto a seleção de Carlo Ancelotti ainda busca uma identidade e mostrou muitas fragilidades contra o Marrocos, seus rivais seguem acumulando resultados, quebrando marcas e diminuindo a vantagem construída ao longo de quase um século.
O sonho do hexacampeonato continua vivo. Mas talvez esta Copa tenha apresentado um desafio adicional para a Seleção Brasileira: defender não apenas o futuro, mas também o passado.
Fonte: Jornal de Brasília