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A ideia pode soar inusitada à primeira vista: um ex-jogador de futebol tentando ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras (ABL). Mas, na prática, não é exatamente uma novidade. O Brasil já flertou com esse movimento antes – e o principal personagem dessa tentativa atende pelo nome de Pelé.
Agora, quem entra em campo com esse objetivo é Zé Roberto, ex-ponta-esquerda de Fluminense e Flamengo. Aos 74 anos, decidiu disputar um espaço entre os chamados “imortais”, mas não apenas com a bagagem do futebol. Ele tem um currículo literário consistente: são oito livros publicados, alguns premiados.
Em um país que respira futebol, ele argumenta que a ausência desse tema na principal instituição literária do país soa como um distanciamento difícil de justificar.
A movimentação atual inevitavelmente remete ao passado. Entre o fim dos anos 1990 e o início dos anos 2000, houve articulações informais para tentar levar Pelé à Academia. Na época, o ex-jogador vivia o auge de sua influência institucional, inclusive como ministro dos Esportes. A ideia era reconhecê-lo como símbolo máximo da cultura brasileira.
O plano, no entanto, nunca avançou. Pesaram contra a iniciativa a resistência de setores mais tradicionais da instituição e, principalmente, a ausência de uma produção literária consistente por parte de Pelé. Ainda que o estatuto permita certa flexibilidade, a exigência de obra com valor cultural reconhecido sempre funcionou como um filtro.
A história da Academia mostra que nem todos os seus membros chegaram exclusivamente pela literatura. Nomes como Getúlio Vargas e Roberto Marinho são exemplos de trajetórias que extrapolam o livro como ponto de partida.
Ainda assim, o caso de Zé Roberto carrega uma singularidade. Ele não depende de uma interpretação ampliada do estatuto nem de capital político relevante. Sua aposta está na escrita e na experiência acumulada dentro de campo, transformada em narrativa ao longo dos anos.
A eleição na Academia é, tradicionalmente, um processo marcado por articulação, paciência e, muitas vezes, fila de espera. Não há garantia de sucesso imediato. Mas a simples formalização da candidatura já provoca um debate incômodo e necessário.
Afinal, o que é a cultura brasileira sem o futebol? A música, o teatro e o cinema já encontraram espaço entre os imortais. Falta saber se a literatura produzida a partir das arquibancadas, dos vestiários e dos gramados também será reconhecida como parte legítima dessa construção.
Se conseguir a vaga, Zé Roberto não chegará sozinho. Levará consigo uma parte da memória afetiva do país, construída entre dribles, derrotas e vitórias. E talvez ajude a reduzir uma distância histórica entre duas linguagens que, no fundo, sempre falaram sobre a mesma coisa: o Brasil.

A coluna na edição impressa do Jornal de Brasília

Fonte: Jornal de Brasília

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