55194704050-6a04a12621-o-e1777765671691-1024x577.jpg

A trajetória do Botafogo sob o modelo de Sociedade Anônima do Futebol (SAF) atingiu um ponto de inflexão dramático que mistura a glória esportiva recente com uma crise administrativa e financeira sem precedentes. Após um 2024 histórico, marcado por títulos e investimento agressivo no futebol, o clube mergulhou neste ano em um cenário de incertezas que hoje ameaça a continuidade do projeto iniciado pelo empresário norte-americano John Textor.

Acionista majoritário da SAF em 2022, Textor assumiu o passivo histórico do clube, prometendo um investimento de cerca de R$ 400 milhões no futebol. Sob sua gestão, o Botafogo modernizou a infraestrutura do Centro de Treinamento (CT) e do Estádio Nilton Santos, além de fortalecer o departamento de análise de mercado. Em campo, o clube conquistou o Campeonato Brasileiro e a Libertadores em 2024.

Porém, o lado financeiro está sufocando a agremiação, apelidada de Estrela Solitária. O endividamento total da SAF saltou para a casa dos R$ 2,7 bilhões, um valor que combina o passivo herdado do clube social com as novas obrigações contraídas para a montagem de elencos estelares.

Essa asfixia se manifestou de forma prática por meio de sucessivos transfer bans impostos pela Fifa. Recentemente, o clube foi impedido de registrar novos jogadores devido a dívidas acumuladas em transferências internacionais, como o caso envolvendo o atacante pernambucano Rwan Cruz, hoje no Ludogorets, da Bulgária. Com a punição, o clube está impedido de inscrever novos jogadores nas competições que disputa, necessitando quitar a dívida de 8 milhões de euros (R$ 48,3 milhões na cotação da época) para poder retornar ao mercado.

O agravamento da crise levou a um rompimento institucional severo. Na semana passada, uma decisão do Tribunal Arbitral da Fundação Getúlio Vargas (FGV) resultou no afastamento de Textor do comando direto da SAF Botafogo. O motivo central teria sido a tentativa do empresário de negociar ações da SAF sem a devida anuência dos demais parceiros e do clube social, além da polêmica entrada com um pedido de recuperação judicial sem consenso interno. Com o afastamento, a gestão interina passou para as mãos de Durcesio Mello, ex-presidente do clube associativo, nomeado agora diretor-geral.

Diante da incapacidade de manter os aportes e da pressão de credores, a SAF Botafogo foi oficialmente colocada à venda no mercado internacional. Publicado no jornal Financial Times, o anúncio de que o controle acionário está disponível atraiu olhares de grupos de investimento, incluindo a empresária sul-coreana Michelle Kang, dona de diversos clubes. Ela já possui histórico de rivalidade comercial com Textor no Lyon, time francês que está entre as propriedades do Eagle Football Group — do qual faz parte a SAF do Botafogo. Entretanto, o processo é complexo devido ao tamanho do passivo financeiro que o comprador terá de assumir.

O futuro do Botafogo, que atualmente ocupa o oitavo lugar no Brasileirão, depende agora de uma corrida contra o tempo para encontrar um novo investidor. A recuperação judicial, pedido protocolado no dia 22 no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, aparece como umas das saídas para escalonar o pagamento dos R$ 1,6 bilhão de curto prazo e evitar que o patrimônio esportivo seja extinto. No entanto, a desconfiança do mercado em relação ao modelo de gestão anterior e a perda de peças-chave do elenco para abater dívidas colocam o clube em uma posição de vulnerabilidade.

O modelo de SAF no Brasil

A Sociedade Anônima do Futebol (SAF) é um modelo de constituição jurídica criado pela Lei 14.193/2021, que permite que os clubes de futebol brasileiros deixem de ser associações civis sem fins lucrativos para se tornarem empresas. Diferentemente do modelo associativo, em que o poder é exercido por sócios e conselheiros eleitos, a SAF possui acionistas e uma estrutura de governança corporativa, permitindo a venda do controle para investidores. O objetivo dessa lei foi profissionalizar a gestão esportiva e oferecer mecanismos mais robustos para o pagamento de dívidas tributárias e cíveis, oferecendo um regime de tributação simplificado e caminhos claros para a recuperação judicial ou extrajudicial.

No cenário de 2026, o modelo já está amplamente disseminado nas principais divisões do país. Além do Botafogo, alguns clubes da Série A adotaram a SAF ou modelos de clube-empresa. Entre eles estão Bahia (gerido pelo Grupo City, que inclui o inglês Manchester City, o japonês Yokohama F. Marinos e o espanhol Girona), Cruzeiro, Vasco da Gama, Atlético-MG, Fluminense e Athletico-PR. Coritiba e Red Bull Bragantino também operam sob lógicas empresariais consolidadas.

O modelo tem gerado resultados mistos: enquanto alguns clubes alcançaram estabilidade financeira e competitiva, outros, como o próprio Botafogo e o Vasco, enfrentam desafios complexos. O time cruzmaltino, por exemplo, entrou em um modelo de SAF que rapidamente ruiu, com o rápido afastamento da 777 Partners. O clube associativo, liderado por Pedrinho (ex-jogador e ídolo vascaíno), assumiu o controle temporário e negocia a venda de 90% da SAF para novos interessados.



Fonte: IstoÉ Dinheiro

Olá, NÃO VÁ,
EMBORA AINDA!

Inscreva-se para receber as notícias em primeira mão em sua caixa de e-mail.

Não fazemos spam! Leia nossa política de privacidade para mais informações.

Destaques Portal Standarte

Relacionadas

Menu