O futebol brasileiro está prestes a testemunhar um dos movimentos financeiros mais emblemáticos de sua história. O Vasco da Gama, sob a gestão de Pedrinho, caminha a passos largos para selar a venda de sua SAF para Marcos Lamacchia, filho do fundados da Crefisa, José Roberto Lamacchia.
O negócio ganha contornos de “superoperação” pelo fato de o patriarca da família e marido de Leila Pereira atuar como avalista, colocando seu próprio patrimônio como garantia para destravar a transação. O valor total da operação, que pode chegar a R$ 2,5 bilhões, levanta uma questão imediata para quem acompanha os bastidores da bola: como é possível que o grupo familiar invista, em uma única tacada, o dobro do que aplicou no Palmeiras ao longo de uma década inteira?
A resposta para essa aparente disparidade não reside na paixão clubista, mas na frieza dos modelos de negócio. No Palmeiras, a relação construída entre 2015 e 2024 foi pautada pelo patrocínio tradicional, ainda que agressivo. Estima-se que, entre verbas de marketing, bônus por títulos e aportes para contratações, o grupo tenha injetado cerca de R$ 1,2 bilhão no Alviverde. No entanto, juridicamente, esse dinheiro foi um “gasto de consumo”. A Crefisa pagou para alugar a vitrine mais vitoriosa do país. Ao fim do contrato, o lucro da empresa foi a exposição da marca e a valorização institucional. A família Lamacchia nunca foi dona de um centímetro do Palmeiras; o clube, como associação, colheu os frutos financeiros e esportivos, mas manteve sua soberania patrimonial.
No Vasco, o cenário é oposto. Os R$ 2,5 bilhões ventilados na negociação não são um pagamento por publicidade, mas o preço de uma aquisição de propriedade. Ao assumir o controle da SAF, o grupo deixa de ser um parceiro comercial para se tornar dono do ativo. Nesse montante, estão incluídos a assunção de uma dívida asfixiante de R$ 1,3 bilhão, um aporte imediato de R$ 500 milhões para contratações e investimentos pesados na modernização de Centros de Treinamento e na manutenção do clube social.
A diferença fundamental é o destino final do lucro. Enquanto no Palmeiras o investimento serviu para manter a engrenagem do clube girando em troca de marketing, no Vasco cada centavo investido visa a valorização da empresa. Se a gestão dos Lamacchia sanear as contas e devolver ao Vasco o protagonismo esportivo, o valor de mercado do clube pode saltar drasticamente, e esse lucro de capital pertencerá exclusivamente aos investidores. Em termos práticos, a família está saindo de um modelo de “aluguel de luxo” em São Paulo para a “compra de um imóvel histórico” no Rio de Janeiro. Embora ainda exista resistência de uma ala política da diretoria vascaína, o peso do sobrenome Lamacchia e a garantia de solvência de José Roberto são trunfos que o presidente Pedrinho pretende usar para consolidar a transição. Se concretizado, o negócio não apenas mudará o patamar competitivo do Vasco, mas consolidará a família como o maior poder econômico do futebol sul-americano, agora com a caneta de proprietários em mãos
Fonte: Jornal de Brasília