VINICIUS SASSINE
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS)
O retorno de Donald Trump à Presidência dos Estados Unidos, as medidas de bloqueio econômico intensificadas contra Cuba e as “práticas anti-humanas” contra migrantes adotadas por Washington são o pano de fundo do aumento sem precedentes do fluxo de cubanos ao Brasil, na visão da embaixada da ilha caribenha em Brasília.
Um conflito militar entre EUA e Cuba ameaças de invasão à ilha são consideradas reais pelo regime cubano pode piorar esse cenário, com migração desordenada, segundo o embaixador Víctor Manuel Palomo, em entrevista por escrito à Folha.
“Uma guerra militar contra Cuba teria graves consequências. Um conflito militar seria de alta intensidade e levaria à desestabilização da região, com inúmeras mortes entre o povo cubano e cidadãos dos EUA”, disse Palomo. “Analistas mencionam que, entre as consequências de uma agressão militar a Cuba, está um possível movimento migratório desordenado.”
O retorno de Trump ao poder e a designação de Marco Rubio como secretário de Estado, cargo de quem exerce a chefia da diplomacia americana coincide com o aumento das jornadas amazônicas de cubanos no Brasil, conforme o embaixador.
Uma “guerra multidimensional” levada adiante por Trump e Rubio termo usado para se referir aos bloqueios econômicos sistemáticos provoca apagões de energia, falta de água potável, queda na produção de alimentos e de medicamentos e deterioração de serviços básicos, segundo Palomo.
A intensificação dessas deficiências em Cuba é constantemente mencionada por migrantes do país que decidem buscar o Brasil, como a Folha constatou na apuração feita em Oiapoque (AP) no extremo norte do país, uma região de amazônia atlântica e em Santana (AP), cidade vizinha a Macapá cujo porto é usado nas jornadas rumo a cidades mais ao sul do país.
“O aumento da chegada de cubanos ao Brasil também coincide com a aplicação de medidas anti-humanas do atual governo dos EUA contra migrantes. A perseguição, a criação de centros de detenção e os processos forçados de deportação geram medo”, afirmou o embaixador de Cuba no Brasil, que está na função desde maio.
Segundo Palomo, os EUA perseguem cubanos que têm relação com o país, uma “política promovida por políticos anticubanos”. Rubio, o secretário de Estado de Trump, nasceu em Miami e é filho de imigrantes cubanos.
“Milhares de cubanos tiveram cancelado o status migratório nos EUA devido a essas políticas extremistas do presidente Donald Trump”, disse o embaixador no Brasil.
A Folha mostrou, em reportagens publicadas em 27 de junho e no último dia 9, a jornada amazônica feita por migrantes cubanos para ingresso no Brasil, o que inclui vendas de imóveis, em alguns casos, e abandono de profissões.
Uma guerra militar contra Cuba teria graves consequências. Um conflito seria de alta intensidade e levaria a desestabilização da região.
Embaixador de Cuba no Brasil
Essas travessias são feitas por ar, terra e água, com passagens por Suriname, Guiana Francesa, região de Oiapoque e Belém, até cidades no sudeste, centro-oeste e sul do Brasil. Grupos têm optado por permanência no país, o que representa uma mudança em relação aos primeiros fluxos, quando os EUA e países vizinhos de língua espanhola eram mais procurados.
São comuns práticas de extorsão e atuação de equipes organizadas para a logística, que cobram valores exorbitantes por uma passagem de barco ou pelo transporte pela rodovia que liga Oiapoque a Macapá.
A PF investiga os crimes de organização criminosa, contrabando de migrantes, extorsão, lavagem de dinheiro e câmbio ilegal. A polícia já identificou 20 “pirateiros” ou “picapeiros” atuando nesse esquema.
No ano passado, 41,9 mil cubanos pediram refúgio no Brasil. É quase o dobro das solicitações feitas por venezuelanos, 21,2 mil, conforme dados do Observatório das Migrações Internacionais, uma parceria entre UnB (Universidade de Brasília) e Ministério da Justiça.
Em 2024, os pedidos de migrantes da ilha somaram 22,3 mil, uma quantidade inferior aos 27,1 mil pedidos de refúgio dos venezuelanos naquele ano.
Quando o pedido é protocolado, a partir de passagens por prédios da PF, os migrantes podem circular pelo país de forma regular e ter acesso a serviços públicos de saúde, educação e documentação.
De 2023 a 2024, quase dobrou a quantidade de cubanos que pediram refúgio no Brasil. E, de 2024 a 2025, essa quantidade quase dobrou outra vez. Trump retomou a Presidência dos EUA em janeiro de 2025.
Os bloqueios econômicos já duram mais de 60 anos e, nos últimos sete meses, o “cerco energético” se intensificou, segundo o embaixador de Cuba em Brasília. Ainda de acordo com Palomo, o governo Trump impede o abastecimento a Cuba. Nos últimos cinco meses, apenas uma embarcação com carga de combustível chegou ao país, enquanto navios militares dos EUA exercem pressão na região.
“O plano é provocar em Cuba uma crise humanitária e a total desestabilização do país, que forcem a ordem presidencial de uma intervenção militar”, disse o embaixador. “O povo cubano se prepara para enfrentar uma guerra, caso ocorra.”
Durante a guerra contra o Irã, Trump afirmou que “Cuba é a próxima”. Ele também já disse que seria “uma honra tomar” a ilha.
Observadores de Havana apontam um fracasso do regime comunista, o que é admitido até por aliados.
As sanções de Trump especialmente no acesso ao petróleo, cujas consequências são apagões de 20 horas diárias e cancelamentos de voos agravaram esse cenário.
“O governo dos EUA comete um ato de genocídio contra o povo cubano e aplica um castigo coletivo para tentar asfixiar a economia do país”, afirmou Palomo.
O embaixador disse que tem mantido comunicação permanente com autoridades brasileiras para proteção dos migrantes cubanos. Existe uma “colaboração bilateral”, segundo ele.
“É motivo de preocupação quando sabemos que um grupo de cubanos tem sido enganado por criminosos ou tem sido vítima de pessoas sem escrúpulos que abusam com a promessa de facilitar a entrada em território brasileiro de forma ilegal”, afirmou. “Cuba está disposta a trabalhar em conjunto com o Brasil na proteção a vítimas de tráfico de pessoas e de tráfico ilícito de migrantes. Somos países amigos.”
Em nota, o Itamaraty afirmou não ter conhecimento de qualquer pedido para a criação de uma comissão bilateral destinada a tratar do assunto. “Temas migratórios e consulares já são passíveis de abordagem nos mecanismos de diálogo e contatos bilaterais existentes, sempre que houver interesse de uma das partes.”
O Ministério da Justiça e Segurança Pública disse acompanhar a atuação de redes criminosas que exploram migrantes. Isso se dá com ações de prevenção e proteção, presentes em um plano de ação, conforme a pasta.
“No caso dos cubanos, o ministério acompanha em articulação com os órgãos competentes, especialmente PF, Itamaraty, Defensoria Pública da União, governos estaduais e organismos internacionais, buscando fortalecer os mecanismos de prevenção, atendimento e encaminhamento de potenciais vítimas de tráfico de pessoas e de contrabando de migrantes”, escreveu, em nota.
Fonte: Jornal de Brasília