Canetas do medicamento para diabetes Ozempic em uma linha de produção para serem embaladas na unidade da fabricante dinamarquesa Novo Nordisk em Hillerod, Dinamarca, 26 de setembro de 2023.
Canetas do medicamento para diabetes Ozempic em uma linha de produção para serem embaladas na unidade da fabricante dinamarquesa Novo Nordisk em Hillerod, Dinamarca, 26 de setembro de 2023.

Em menos de dois meses, no mês de março, encerrará no Brasil a vigência da patente da semaglutida, molécula presente nos medicamentos Ozempic e Wegovy, da Novo Nordisk. Especialistas esperam que medicamentos genéricos ou similares chegarão ao mercado antes do final do ano, aumentando ainda mais o consumo dos agonistas do GLP-1, popularmente apelidados de “canetas emagrecedoras”.

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A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) informa que analisa atualmente 13 pedidos de registro de medicamentos contendo semaglutida. Há ainda outros nove pedidos em análise relacionados a medicamentos com liraglutida, outra substância inicialmente comercializada pela Novo Nordisk, cuja patente caiu no final de 2024.

Ao menos três empresas confirmaram à IstoÉ Dinheiro que já tem planos para comercializar suas próprias versões da semaglutida: a Biomm, EMS e a União Química. Em outra estratégia, a Eurofarma fechou uma parceria com a Novo Nordisk e já comercializa suas próprias versões da semaglutida antes mesmo da queda da patente, com as marcas Extensior e Poviztra.

As empresas brasileiras são apenas parte das possíveis interessadas em explorar este mercado. Também no mês de março, a patente da semaglutida expirará na Índia, abrindo oportunidades para fabricantes como Cipla, Narcofarma e Biocon. “São empresas que tem grande potencial industrial e histórico de entrada em mercados pós-queda de patente”, comenta o analista Gerson Brilhante, da Levante Inside Corp.

Concorrência dificulta reversão da suspensão de patente

A Novo Nordisk já realizou diversas tentativas jurídicas de reverter o fim da patente da semaglutida. A empresa alegava que foi prejudicada pela demora de quase 13 anos da Anvisa para liberar o uso do medicamento. Em dezembro de 2025, o Supremo Tribunal Federal decidiu, por unanimidade, que o prazo de 20 anos para vencimento da patente conta a partir do momento da submissão para análise do órgão regulatório, mantendo assim a expiração para março de 2026.

“Na prática, é virtualmente impossível que haja alteração dessa decisão por meio da ação judicial que está em curso”, analisa o advogado Guillermo Glassman, sócio da área de Life Sciences do L.O. Baptista. “É lógico que, em termos jurídicos, sempre há espaço para construir novas teses. Mas, na prática, é impossível que isso seja revisto nesse momento.”

Glassman destaca que o fato de concorrentes estarem se movimentando para entrar no mercado dificulta ainda mais qualquer revés jurídico em favor da Novo Nordisk.

Registro em andamento e investimentos confirmados

Ao menos uma das empresas consultadas pela IstoÉ Dinheiro afirma que já submeteu à Anvisa a solicitação de registro de uma versão genérica da semaglutida: a Biomm afirma que “estará apta a disponibilizar o medicamento ao mercado após a obtenção da aprovação regulatória”. O medicamento será produzido em uma planta industrial já em atividade em Nova Lima (MG), onde já fabrica insulina humana e insulina glargina. O investimento no espaço foi de R$ 800 milhões.

A EMS também confirmou investimentos robustos: mais de R$ 1 bilhão para sua plataforma própria com fábrica, focada na produção de liraglutida e semaglutida.

Mais opções e mais consumidores

Relatório publicado em 7 de janeiro pelo Itaú BBA aponta que remédios genéricos e similares dos agonistas do GLP-1 fabricados pela dinamarquesa Novo Nordisk podem movimentar R$ 8,4 bilhões já em 2027. Para além da semaglutida, a dinamarquesa fabrica também a liraglutida, cuja patente caiu no final de 2024.

Em agosto de 2025, a EMS disponibilizou suas versões nacionais mais baratas do medicamento. O lançamento oferece um cenário análogo para analisar a possível entrada de novas opções no mercado. Logo no mês de lançamento, a venda total de liraglutida cresceu 154,5% no país, com as versões da EMS representando mais da metade (55,7%) das vendas.

Liruz e Olire, versões da liraglutida da EMS (Crédito:Divulgação)

Líder de Market Insights da Close Up International, empresa responsável por levantar os dados sobre a liraglutida, Filipe Campos afirma que não houve uma canibalização do mercado da Novo Nordisk. Os lançamentos da EMS na verdade aumentaram o número de unidades vendidas e de médicos prescritores.

“Portanto, para a quebra de patente da Semaglutida, estima-se que o número de pacientes usuários das medicações seja ampliado”, diz.

Vai ter ‘Ozempic genérico’ no SUS?

Com o barateamento dos medicamentos, abre-se a possibilidade de uma eventual inclusão da semaglutida no Sistema Único de Saúde (SUS). O Ministério da Saúde afirmou que solicitou à Anvisa prioridade no registro de medicamentos compostos pelos princípios ativos semaglutida e liraglutida. “A entrada de novos medicamentos genéricos no mercado e aumento da concorrência deve reduzir os preços de forma significativa”, afirma o órgão.

Questionado pela IstoÉ Dinheiro, o Ministério da Saúde afirma que “realiza o monitoramento constante do panorama de propriedade intelectual de fármacos essenciais, como antineoplásicos e biotecnológicos, para subsidiar o planejamento de compras e as estratégias de incorporação tecnológica”.

Em 2025, uma análise para possível inclusão do Ozempic na saúde pública chegou a uma negativa pois o o impacto orçamentário foi avaliado em mais de R$ 8 bilhões anuais. O valor representaria quase o dobro do orçamento total do programa Farmácia Popular no ano.

Para serem incluídas no sistema público, os novos medicamentos deverão ser substancialmente mais baratos. A liraglutida da EMS, por exemplo, não alcançou a diferença de preço de 35% em relação ao medicamento de referência necessária para ser classificada como genérico. Com preços acima de R$ 600, ainda estão longe de uma plena acessibilidade para a população e o sistema público.

Professor da Faculdade de Saúde Pública da USP (Universidade de São Paulo), Gonzalo Vecina Neto afirma que, mesmo em versões genéricas, o medicamento enfrentaria outro entrave no SUS: a alta demanda. Segundo o Atlas Mundial da Obesidade 2025, cerca de 31% da população adulta brasileira vive com obesidade.

“O SUS deverá reservar a utilização desses medicamentos para determinado padrão de paciente com um risco maior. Por exemplo, os pacientes com obesidade mórbida, que não forem candidatos a fazer cirurgia bariátrica”, afirma Vecina. “Isso deverá ser uma uma discussão importante que o Ministério vai travar com a com a sociedade, para estabelecer um protocolo de quem vai pode receber.”

Semaglutida é um dos agonistas do GLP-1 mais populares no país

Comercializada pela Novo Nordisk no Brasil desde 2019, a semaglutida contava com mais de 90% do mercado de agonistas do GLP-1 até maio do ano passado. A chegada do Mounjaro mudou este cenário, com o estudo da Close Up Internacional mostrando ambos com mais de 40% de market share em agosto de 2025.

A classe dos medicamentos análogos do GLP-1 (Peptídeo Semelhante ao Glucagon tipo 1) imita um hormônio que o corpo produz naturalmente no intestino após as refeições, atuando em diferentes órgãos para regular o metabolismo e o peso. Como resultado, diminui o nível de glicose e aumenta a sensação de saciedade.

Originalmente aprovada para o tratamento do diabetes tipo 2, a semaglutida tornou-se mundialmente conhecida por sua eficácia no tratamento da obesidade e do sobrepeso. A Novo Nordisk comercializa o medicamento sob duas marcas, uma com bula focada no diabetes (Ozempic) e outra direcionada para o sobrepeso (Wegovy).

Outros agonistas do GLP-1 populares no país são:

  • Liraglutida, comercializada pela Novo Nordisk com as marcas Saxenda e Victoza e pela EMS com as marcas Olire e Lirux;
  • Dulaglutida, comercializada pela norte-americana Eli Lilly com a marca Trulicity;
  • Tirzepatida, comercializada pela norte-americana Eli Lilly com a marca Mounjaro.

Segundo relatório do Itaú BBA, o mercado de agonistas do GLP-1 movimentou em 2025 cerca de R$ 10 bilhões, o que corresponde a aproximadamente 4% do tamanho total do mercado de varejo farmacêutico no Brasil.

A popularidade destes medicamentos gerou uma corrida por novas criações na mesma linha. A chinesa Hangzhou Sciwind Biosciences trabalha neste momento em uma molécula própria, a ecnoglutida. Já a também chinesa Innovent Biologics desenvolve em parceria com a Eli Lilly outra substância, a Mazdutide.



Fonte: IstoÉ Dinheiro

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