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O Inhotim não é um museu convencional. Também não é um Jardim Botânico convencional. Espalhado por 140 hectares em Brumadinho (MG), o “maior museu a céu aberto do mundo”, como é conhecido, celebra 20 anos em 2026. O ano de efemeride já começou com uma indicação do periódico americano The New York Times como um dos 52 lugares para se conhecer em 2026, sendo o único destino brasileiro da lista.

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“Acho que em Inhotim tem pautado um jeito de ser museu que muito interessa ao Brasil e ao mundo”, diz Paula Azevedo, diretora-presidente da instituição e que tem liderado a gestão dos últimos quatro anos. No período, Inhotim quase dobrou sua receita, passando de R$ 53 milhões para R$ 96 milhões ao ano, resultado, também de uma diversificação de fontes.

O destino, em meio à natureza e muito marcado por seu território – como lembra Paula – também celebra recorde de visitantes em 2025, de mais de 361 mil. Entre deles, conta a diretora, gestores de outros museus e instituições pelo mundo.

O momento de destaque de Inhotim é celebrado também por marcar uma ‘reconstrução’, após  enfrentar da tragédia de 2019 em Brumadinho, em que o rompimento de uma barragem da Vale cobriu a cidade de lama de rejeito de mineração e deixou 272 mortos,  e do período pandêmico, em que o local ficou fechado por oito meses, que gerou um “impacto financeiro enorme”.

Em entrevista à IstoÉ Dinheiro, Paula Azevedo fala sobre a governança de Inhotim e adianta sobre o lançamento do Fundo patrimonial previsto para abril, como parte de uma extensa e especial programação de aniversário prevista para este ano. “Esse modelo de gestão e de governança, ele é muito atual e pode ser usado e replicado por outras instituições”.

Confira a entrevista:

IstoÉ Dinheiro: O Inhotim sempre foi conhecido como o maior museu a céu aberto do mundo, ou um dos maiores, mas início deste ano recebeu um destaque no New York Times, sendo o único destino do Brasil na lista de ’52 lugares para conhecer em 2026′ feita pelo jornal, um dos mais prestigiados. Como vocês receberam essa exposição internacional e qual o impacto para a instituição?

Paula Azevedo: Fomos pegos de surpresa positivamente. Foi uma matéria totalmente voluntária [sem uma ação ativa da instituição], então, acho que tem um peso ainda maior. Para nós, foi uma grande surpresa e de alguma forma não só um reforço do nosso trabalho, mas um reforço grande para comemorar nossos 20 anos. E também uma grande validação. Inhotim tem 20 anos de história, mas também tem uma história recente que é de institucionalização desse lugar tão importante.

E ainda o fato de estar em Brumadinho, fora dos grandes eixos como São Paulo ou Rio, e ser reconhecido como um destino global é um reforço enorme para o nosso propósito.

Pois estar em Brumadinho, e não em uma metrópole, não deixa de ser um grande diferencial estratégico para Inhotim…

Paula Azevedo: Sem dúvida. Em 2025, batemos o recorde histórico de visitação. Isso é simbólico porque temos investido muito na experiência do visitante. Entendemos que o Inhotim não é um destino de “uma vez só”, mas um destino recorrente, especialmente para os mineiros. Diferente de um museu urbano onde você entra e sai rápido, aqui você se programa, passa o dia, se alimenta e vive o tempo do museu, que é ditado pela natureza e pelas estações. O Inhotim, as estações do ano interferem muito na visita, porque você pode ter um espaço mais florido, você pode ter um Inhotim mais seco, mais verde…depende da época do ano que você vem, a paisagem muda. Então isso é muito relevante também.

E eu acho que nesse momento estamos fortalecendo essa visibilidade do Inhotim, principalmente visando essa parte de inspirar o mundo. O ano passado foi um ano de visitas muito importantes de instituições internacionais. O Inhotim é uma referência, então, a gente tem recebido muitos museus, instituições, de grupos de patronos, de diretores de museus. Acho que em Inhotim tem pautado um jeito de ser museu que muito interessa ao Brasil e ao mundo.

O Instituto passou por dois momentos na sua história recente que penso terem sido muito difíceis: a tragédia de Brumadinho em 2019 e a pandemia que estourou no país em março de 2020. Como foram esses momentos e quais os impactos?

Paula Azevedo: Foram golpes duros. Em 2019, a tragédia em Brumadinho [rompimento de uma represa de rejeitos da Vale] marcou o território e nossos colaboradores — 79% deles são da região. Então, o número de colaboradores afetados direto ou indiretamente pela tragédia foi muito grande. O museu sofreu, sim, sofreu bastante, tanto na questão de diminuição da visitação, como também o reflexo da própria cidade, onde entramos todos em um processo de luto, e depois de tentar se levantar, de reconstrução.

Estamos em território que é muito singular, né? Uma área de mineração, com a sua história toda de território. E Inhotim tinha uma presença importantíssima na relação com o território. E em 2019 tem essa grande tragédia, que  marca o território, marca as pessoas e marca muito o Inhotim. Hoje, Inhotim só não abre em três datas no ano: Natal, Ano Novo e 25 de janeiro, a data da tragédia, em respeito às vítimas e familiares. Nos afetou muito fortemente.

E logo depois, em 2020, ficamos fechados por oito meses, o que gerou um impacto financeiro enorme, já que o museu ainda dependia muito do aporte do fundador, Bernardo Paz. Ali surgiu a urgência de pensar na perenidade da instituição além do seu criador. Surgiu uma preocupação muito grande com o futuro da instituição e daquele grande sonho, sobre como seria a perenidade daquela instituição e até na questão de sucessão. Em janeiro de 2022, assumimos com o desafio de profissionalizar a gestão e criar uma nova governança.

E como se dá esse novo modelo de governança que vem desde 2022?

Paula Azevedo: Em 4 anos a gente transformou essa instituição, realmente, numa referência mundial.
Estruturamos a reestruturação em um tripé. Primeiro, a doação integral do acervo e das terras pelo Bernardo Paz para o Instituto; o Inhotim deixou de pertencer a um CPF para ser um patrimônio público. Segundo, a criação de um Conselho de Administração com 20 membros da sociedade civil. E o terceiro pilar foi a sustentabilidade financeira. A partir daí a gente começa uma nova narrativa profissional, de captação de recurso, de geração de receita, de autonomia financeira, de autonomia de aportes por parte do fundador e de também autonomia curatorial, buscando diversificação de receitas.

Acho que esse modelo de gestão e de governança, ele é muito atual e ele pode ser usado e replicado por outras instituições. E isso me deixa muito grata, porque eu acho que a gente não faz só para gente, a gente faz para o mundo, pelo bom exemplo.

Galeria Adriana Varejão em Inhotim (Crédito: foto William Gomes/Divulgação) (Crédito:Foto: William Gomes/Divulgação)

E quais os desafios de uma gestão de uma entidade privada sem fins lucrativos, mas que precisa manter a sustentabilidade dos negócios e negócios no setor cultural?

Paula Azevedo: Tem um paradigma da instituição sem fins lucrativos, né? Esse é um paradigma na cultura que é muito curioso, porque claro que não tem fins lucrativos, mas precisamos ter os meios de sermos uma instituição sustentável a médio longo prazo a criar reservas. Ele é um negócio prioritariamente cultural, social, mas ele tem um perfil que precisa ser economicamente sustentável.

Vivemos de geração de receita própria, tem bilheteria, tem a loja, faz as feiras, tem programa de patronato e amigos, , então, que são consideradas doações, e a gente tem também lei federal, lei Rouanet e lei estadual. Fazemos uma união de toda essa receita para poder ser sustentável, visando também ter uma reserva de caixa. Acho que isso é muito importante para a instituição.

Instituição cultural não distribui dividendos, não faz repasse, não paga bônus…mas isso não quer dizer que a operação anual não possa ser superavitária.

E como está evoluindo a ‘bottom line’ do Instituto?

Paula Azevedo: Tivemos um crescimento muito significativo. No início da nova gestão, em 2022, nossa receita era de cerca de R$ 53,6 milhões. Fechamos 2025 com aproximadamente R$ 96,1 milhões. Esse aumento vem da bilheteria, operações de alimentos e bebidas, loja, programas de patronato e, claro, leis de incentivo (Rouanet e Estadual).

Então temos um orçamento anual de cerca de mais de 90 milhões de reais. É bastante expressivo. Parece muito [dinheiro], mas, ao mesmo tempo, temos também uma de área que é muito relevante. São 19 galerias, 89 edificações, entre lugares administrativos, reservas técnicas, centros de vivência… São 11 subestações de energia, mais de 60 km de tubulação, seja de irrigação ou de cabos de internet.

Então, assim, é realmente um microcosmos. E tem o lado botânico, um laboratório que tem mais de 500 mil sementes armazenadas. Dos nossos 140 hectares, 75 hectares são de fragmentos florestais, ou seja, corredores verdes que se formaram ao longo desses anos, com plantio e etc. que ligam RPPNs [Reserva Particular de Patrimônio Natura] na região. Tem uma fauna e uma flora muito relevante aqui no território.

Então, tudo isso faz parte de um orçamento eh enorme. E que ainda não é o orçamento artístico ou, enfim, ligado a a a educação, mas é também um orçamento de operação muito grande. Hoje são cerca de 520 colaboradores e colaboradoras. E calculamos mais de 900 colaboradores, de pessoas ligadas ao Inhotim, indiretamente, entre terceiros e prestadores de serviço.

E o que tem no pipeline de negócios para garantir a sustentabilidade do negócio e crescer em receita nos próximos anos?

Paula Azevedo: O grande projeto agora é o lançamento do nosso Fundo de Endowment [Fundo Patrimonial] em abril. A ideia é que a gente faça captações no Brasil e no exterior. Ele terá três fases: acumulação (até R$ 50 milhões), transição (até R$ 100 milhões) e consolidação (acima de R$ 100 milhões). Quando atingirmos a consolidação, poderemos usar os rendimentos para custear a instituição, tornando-a protegida de oscilações políticas ou econômicas. Queremos ser um modelo de gestão que possa ser replicado por outras coleções privadas no Brasil.

E, em termos de visitação, temos o desejo de bater anualmente os 500 mil visitantes. Uma projeção que tem o Clara [hotel de luxo inaugurado recentemente nas adjacências do museu], que faz um aporte importante e acaba puxando para o desenvolvimento do turismo na região. Por conta desse movimento, a gente vê outros novos empreendimentos surgindo. O Clara traz um reforço para nós de alguma forma com relação ao turismo. A gente sabe que o Clara atinge uma parcela muito pequena dos nossos visitantes ainda, mas eu acho que ele é um movimento de melhora da própria rede hoteleira da região.

E claro, apostamos no aumento e na melhora da economia no território, acho que tudo isso está atrelado. Como questões de infraestrutura, desde uma maior atenção de governos com estradas e vias de acesso para Brumadinho, como um novo aeroporto em Betim (MG).

O Inhotim é um grande gerador de negócios. O Inhotim nasceu “ESG” antes de a sigla existir, focando em arte, natureza e educação. Nosso objetivo é que, até 2030, essa engrenagem de turismo e cultura transforme de vez a economia local.

Dan Graham, Bisected triangle, Interior curve, 2002, [vista aérea]. (crédito: Foto Brendon Campos/Divulgação)



Fonte: IstoÉ Dinheiro

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