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A crise do GPA, dono das marcas Extra e Pão de Açúcar, sinaliza também um momento de transformação do setor de varejo alimentar no país. A empresa entrou em recuperação extrajudicial nesta semana, informando uma dívida de R$ 4,5 bilhões a ser renegociada.

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Especialistas consultados pela IstoÉ Dinheiro apontam que anos de inflação e juros altos tornaram a população brasileira mais sensível a preço, e fortaleceram o atacarejo, modelo de comércio que mistura atacado e varejo.

A mudança fica evidente no ranking da Associação Brasileira de Supermercados (Abras) dos supermercados com maior faturamento no país. A última edição, publicada em abril de 2025 e com dados referentes a 2024, mostra o GPA na 5ª posição, atrás do Supermercados BH, Grupo Mateus, Assaí e do primeiro colocado, Grupo Carrefour.

Veja o ranking completo:

# Empresa Faturamento (R$)
Grupo Carrefour Brasil 120,6 bi
Assaí Atacadista 80,6 bi
Grupo Mateus 36,4 bi
Supermercados BH 21,3 bi
GPA (Grupo Pão de Açúcar) 20,0 bi
Grupo Muffato 17,4 bi
Grupo Pereira 15,3 bi
Mart Minas & Dom Atacadista 11,4 bi
Cencosud Brasil 11,2 bi
10º Grupo Koch 10,3 bi
11º Plurix 9,4 bi
12º Companhia Zaffari 8,4 bi
13º DMA Distribuidora 8,3 bi
14º Tenda Atacado 7,4 bi
15º Costa Atacadão 7,3 bi
16º Savegnago Supermercados 6,9 bi
17º Atacadão Dia a Dia 6,0 bi
18º Sonda Supermercados 5,9 bi
19º Novo Atacarejo 5,8 bi
20º Comercial Zaffari 5,7 bi
21º Grupo Líder 5,3 bi
22º Supermercados Andreazza 5,2 bi
23º Grupo ABC 4,9 bi
24º Grupo Supernosso 4,7 bi
25º Supermercados Bahamas 4,3 bi
26º Zaragoza (Spani Atacadista) 4,2 bi
27º Giassi Supermercados 4,1 bi
28º Roldão Atacadista 4,0 bi
29º Pague Menos 3,9 bi
30º Angeloni 3,8 bi

A ascensão do atacarejo

Mistura de atacado com varejo, o segmento “atacarejo” dispensa embalagens enfeitadas, variedade de produtos premium e boa apresentação nas prateleiras. Ao invés disso, o cliente encontra bons preços e promoções para compra em grande quantidade, que atraem, inclusive, comerciantes de pequenos mercados de bairro.

“A escala operacional é o grande motor para que essas grandes varejistas se destaquem. Com essa escala é possível que esses grupos consigam adequar seu modelo de negócio ao ambiente econômico do momento”, analisa o economista Caio Mitsuo, especialista em investimentos e MBA em Finanças pela B7 Business School.

Campeão no ranking da Abras, o Carrefour conta com uma estratégia multiformato, atendendo também com a marca de atacarejo Atacadão. “Essa diversidade permite capturar diferentes perfis de cliente e gera escala que reduz custos logísticos e de suprimentos”, explica o analista-chefe da Cultura Capital, Gabriel Uarian.

O Assaí opera em um formato “atacarejo puro”. Segundo Uarian, a empresa expandiu agressivamente nos últimos anos, abrindo lojas em pontos estratégicos e alcançando um caixa forte, ainda que com margens menores.

Placa com logo do Assai em unidade em São Paulo. Foto: Paulo Whitaker/Reuters

Outra tradicional do atacarejo, o Grupo Mateus foca no Nordeste, onde se posiciona de acordo com preferências regionais e expande através de aquisições. Em uma estratégia similar, o Supermercados BH, apesar de não operar atacarejo, também aposta em grande afinidade com os consumidores de Minas Gerais, crescendo com eficiência em um espaço mais restrito.

A crise do GPA

O especialista em renda variável da Davos Investimentos, Marcelo Boragini, recorda que os problemas do grupo GPA não são recentes, e foram agravados durante tentativas de reorganização dos negócios nos últimos anos. A escalada dos juros atrapalhou ainda mais, aumentando o custo de crédito e o endividamento da empresa.

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“Além da mudança do perfil do consumidor e da concorrência mais forte, o GPA enfrenta desafios internos importantes. Os processos de reestruturação estratégica são mais pesados e pressionam margens em um setor que já opera com uma rentabilidade relativamente baixa”, analisa Boragini.

Na tentativa de contornar a crise, o GPA reduziu operações e fechou lojas nos últimos anos. Em 2021, quando ainda operava sob controle do grupo francês Casino, a empresa se desfez da marca Assaí, uma estratégia equivocada de acordo com os analistas.

“O grupo apostou em bandeiras premium como o Pão de Açúcar e em formatos de proximidade. No entanto, o mercado migrou para preço agressivo, e o GPA ficou preso no meio: caro demais para quem busca atacarejo, mas sem o glamour exclusivo que justifica o prêmio em tempos de bolso apertado”, comenta Gabriel Uarian.

Com a expectativa de uma continuidade do crescimento do atacarejo, o GPA terá de criar estratégias para ganhar maior rentabilidade. Solucionar a dívida que o levou a recuperação extrajudicial é apenas parte do caminho até lá.



Fonte: IstoÉ Dinheiro

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