14/08/2026 – 14:20
Em evento com o mercado, ex-presidente do Banco Central alerta que exigência de inflação na meta de 3% sem equilíbrio nas contas públicas trava a queda da Selic e eleva o custo da dívida.
O que aconteceu
Origem da Pressão nos Juros: O economista e ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco afirmou que a manutenção da taxa básica de juros em patamar elevado não decorre de rigor excessivo da autoridade monetária, mas sim da incoerência fiscal do governo federal.
Descompasso de Metas: Franco apontou que exigir que o Banco Central persiga a meta de inflação de 3% ao ano enquanto a gestão pública opera com déficit primário gera uma contradição estrutural na economia.
Alerta para o Crédito Público: O sócio-fundador da Rio Bravo comparou a deterioração das contas públicas a uma degradação urbana gradual, destacando que o entrelaçamento entre risco fiscal e monetário encarece a captação do Tesouro Nacional.
Potencial de ‘Primeiro Mundo’: O economista defendeu que o equacionamento definitivo do déficit é a única via sustentável para que o Brasil pratique taxas de juros civilizadas, mais próximas de 5% ao ano do que do patamar atual de dois dígitos.
A persistência da taxa básica de juros (Selic) em patamares elevados voltou ao centro do debate econômico sob uma perspectiva crítica em relação à gestão das contas públicas. Durante participação no painel de abertura do evento T&E Summit, organizado pela Paytrack, o economista e ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco desmontou a tese de que o rigor monetário decorre de uma postura intransigente da autoridade monetária. Para o especialista, o nível atual dos juros reflete diretamente o desequilíbrio fiscal promovido pelo Executivo.
Segundo Franco, o cenário atual coloca um desafio permanente para a diretoria do Banco Central, chefiada por Gabriel Galípolo. O economista destacou a dificuldade em demonstrar aos agentes políticos em Brasília que a taxa de juros não é fixada de forma arbitrária, mas sim como resposta técnica ao impulso fiscal do governo.
Classificando o superávit primário como a versão pública do Ebitda corporativo — ou seja, a capacidade real do Estado de gerar caixa e honrar compromissos —, Franco criticou a convivência entre um déficit primário de cerca de 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB) e a cobrança política para que o BC entregue uma inflação ancorada na meta de 3%. Na avaliação do especialista, exigir rigor monetário sem a devida contrapartida de corte de gastos é uma contradição que impede a flexibilização das taxas.
Ao analisar a saúde das finanças estatais, o ex-presidente do BC avaliou que a percepção do risco fiscal deteriorou-se fortemente, ainda que os indicadores tradicionais amorteçam temporariamente o impacto visual da crise. O economista alertou que a erosão do crédito público não costuma ocorrer por rupturas abruptas, mas por um processo lento e cumulativo.
Franco comparou essa dinâmica ao fenômeno da deterioração urbana, que compromete um bairro quarteirão por quarteirão de maneira quase imperceptível até a consolidação da degradação. No campo financeiro, essa percepção se manifesta no aumento do prêmio de risco cobrado pelos investidores para financiar a dívida pública.
Em economias consolidadas da Europa, o prêmio exigido em leilões de dívida costuma rodar descolado das disputas fiscais cotidianas. No Brasil, contudo, as políticas fiscal e monetária permanecem umbilicalmente entrelaçadas. O resultado direto dessa contaminação é o encarecimento do custo de captação do Tesouro Nacional, obrigando o Estado a emitir títulos a taxas cada vez mais altas para atrair compradores.
Para Gustavo Franco, o ajuste fiscal não é um debate abstrato, mas o único pré-requisito capaz de destravar um ciclo duradouro de prosperidade financeira. O economista ressaltou que, se a questão das contas públicas for resolvida com um choque de gestão focado em corte de despesas — e não em aumento de arrecadação —, o Banco Central terá condições operacionais de praticar juros equivalentes aos de países desenvolvidos, situados mais próximos de 5% ao ano do que do patamar de dois dígitos atual.
Revisitando o contexto histórico recente, o especialista lembrou que o Brasil já esteve em uma trajetória consistente de convergência para juros de um dígito no passado. Contudo, essa dinâmica foi interrompida pelas escolhas de política econômica adotadas durante a gestão da ex-presidente Dilma Rousseff (2011–2016), cujos desdobramentos reconfiguraram a curva de juros no País e elevaram o patamar estrutural da taxa Selic.
Guia do Investidor
Diante das sinalizações de estresse fiscal prolongado e do alerta de manutenção dos juros em níveis elevados, o investidor individual deve ajustar estrategicamente a alocação de ativos:
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Ancoragem em Ativos Pós-Fixados: Enquanto o impasse fiscal mantiver a Selic em patamar elevado, títulos indexados à taxa diária de juros (como Tesouro Selic, CDBs e LCIs/LCAs de instituições sólidas) continuam oferecendo retornos reais expressivos com baixo risco de mercado.
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Cuidado com Prefixados de Longo Prazo: Evite concentração excessiva em papéis prefixados de prazos longos. A volatilidade decorrente das incertezas fiscais e do aumento do prêmio de risco do Tesouro pode provocar fortes oscilações de marcação a mercado.
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Proteção Inflacionária Estrutural: Aloque parcela relevante da carteira em títulos atrelados ao IPCA (como Tesouro IPCA+ com vencimentos intermediários). Essa estratégia preserva o poder de compra e garante um cupom real atrativo mesmo em cenários de reaceleração da inflação.
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Atenção ao Risco de Crédito Privado: A manutenção prolongada de juros altos eleva o custo financeiro das empresas corporativas. Na escolha de debêntures e papéis de crédito privado, priorize emissores com rating elevado e baixo nível de endividamento.
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Fonte: IstoÉ Dinheiro