A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) decidiu, ontem, manter a suspensão da fabricação, comercialização, distribuição e uso de produtos da marca Ypê com lotes terminados em 1. A medida foi confirmada na reunião extraordinária da diretoria colegiada da agência e restabelece os efeitos da Resolução 1.834, que havia sido suspensa temporariamente após recurso apresentado pela empresa.
Com a nova decisão, seguem proibidos detergentes, lava-louças, lava-roupas líquidos e desinfetantes produzidos na unidade da empresa em Amparo, no interior de São Paulo. O recolhimento dos produtos, porém, continuará suspenso até que a companhia apresente um plano de rastreabilidade e mitigação de riscos aprovado pela Anvisa.
A agência afirmou que identificou “falhas graves e sistêmicas” em etapas consideradas críticas do processo produtivo. Entre os problemas apontados estão deficiência no controle de qualidade, ausência de validação de processos, monitoramento microbiológico inadequado, fragilidade na rastreabilidade e falhas em ações corretivas adotadas pela fabricante.
Na sessão, o diretor Daniel Pereira declarou que a própria empresa reconheceu mais de 100 lotes com resultados microbiológicos insatisfatórios. Segundo ele, a fábrica trabalha atualmente na implementação de 239 ações corretivas relacionadas às exigências sanitárias identificadas em inspeções realizadas entre 2024 e 2025.
“A agência não pauta suas decisões por critérios políticos, mas pela responsabilidade sanitária que possui com a população”, afirmou Daniel Pereira durante a votação.
A ressalva foi feita porque, na semana passada, bolsonaristas acusaram a Anvisa de agir politicamente e perseguir a Ypê pelo fato de que integrantes da família controladora da Química Amparo contribuíram com a reeleição de Jair Bolsonaro, em 2022. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), membros da família Beira doaram juntos R$ 1 milhão. Apoiadores do ex-presidente postaram vídeos nas redes sociais usando produtos da marca em reação à falsa atuação política da agência.
A fiscalização ocorreu entre 27 e 30 de abril em uma ação conjunta da Anvisa, do Centro de Vigilância Sanitária do Estado de São Paulo e da Vigilância Sanitária municipal de Amparo. De acordo com os técnicos que participaram da operação, as irregularidades encontradas indicaram comprometimento amplo dos processos de fabricação.
“Risco sanitário alto”
A diretora Daniela Marreco afirmou que os fiscais identificaram “um cenário de falhas múltiplas e recorrentes nas boas práticas de fabricação”. Segundo ela, a situação representava “risco sanitário alto” por envolver problemas simultâneos em barreiras consideradas essenciais para garantir a segurança dos produtos utilizados pelos consumidores.
A discussão sobre possível contaminação microbiológica ganhou força após a confirmação da presença da bactéria “Pseudomonas aeruginosa” em diversos lotes produzidos pela empresa em 2025. O microrganismo é conhecido pela resistência a antibióticos e pode causar infecções urinárias, respiratórias, dermatites e conjuntivites, especialmente em pessoas imunocomprometidas.
O diretor Thiago Campos afirmou que a atuação da Anvisa ocorreu de forma preventiva diante do risco identificado. “A proteção da saúde coletiva deve prevalecer até que haja segurança suficiente sobre a restauração das condições adequadas de controle e qualidade”, frisou.
A Anvisa informou ainda que recebeu denúncias relacionadas à fabricante por meio do sistema Fala BR, entre outubro de 2025 e março de 2026. A agência afirmou, porém, que a fiscalização estava programada antes das representações e destacou que procedimentos desse tipo fazem parte da rotina da vigilância sanitária.
A Ypê informou que seus produtos são seguros e declarou que vem colaborando com as autoridades sanitárias. Em nota, a empresa afirmou que decidiu manter paralisada parte da produção da fábrica de líquidos para acelerar a implementação das medidas corretivas exigidas pela fiscalização.
A companhia também afirmou que a segurança dos consumidores segue como prioridade e informou que continuará apresentando documentos e argumentos técnicos no recurso administrativo que ainda será analisado pela Anvisa.
*Estagiária sob a supervisão de Fabio Grecchi
Rafaela Bomfim*
Estagiário
Graduanda de Jornalismo, no IESB.
Estagiária na editoria de Brasil, Economia e Politica. Com experiência na editoria de Tecnologia e Inovação.
Fonte: Correioweb