Brasília tem uma relação longa e pouco reconhecida com o rap. Desde os anos 1980, as periferias da capital construíram uma cena musical que atravessou gerações sem depender de holofotes do eixo Rio-São Paulo. Neste sábado (16), o Festival Meskla chega à sua quarta edição para mostrar essa trajetória com estrutura, investimento e um line-up que mistura os nomes mais quentes do cenário nacional com artistas que constroem esse caminho há décadas na cidade.
Desta vez, o festival ocupa o estacionamento do Estádio Nacional Mané Garrincha, com portões abertos às 14h e mais de 13 horas de programação distribuída em dois palcos. Entre as atrações confirmadas estão Matuê, Veigh, Felipe Ret, Major RD, TZ da Coronel convida Raflow, Brandão, AJULLIACOSTA, MC Luanna, além dos representantes locais GOG convida Dexter, Isa Marques e Saphira. O evento ainda promete ativações de lifestyle, produtos oficiais da marca Born e uma tirolesa para o público.
Para o rapper GOG, uma das vozes mais longevas e respeitadas do hip hop brasileiro, a longevidade não é coincidência. “O hip hop é uma tecnologia humana que transcende a música como arte, se tornando cultura. Talvez a minha longevidade esteja ligada a um pressuposto: não desviar na reta do fim das vozes do início, mesmo sendo agregativo, apresentar novos talentos e receber os avanços como contribuições e não impeditivos”, afirma o artista ao Jornal de Brasília.
No festival, ele divide o palco com Dexter em um encontro que carrega anos de trajetória e respeito mútuo. “O Dexter é uma pedra fundamental, passou por tempos difíceis e superou de cabeça erguida cada obstáculo. O considero o Mandela Brasileiro. No Festival Meskla traremos anos de trajetória ao palco com a força do bumbo e da caixa”, descreve GOG.
A visão do rapper sobre o que o movimento construiu em Brasília é precisa: “O hip hop do DF e entorno proporcionam desde meados dos anos 80 a política pública popular mais relevante para sua juventude. Sem a atuação do hip hop nas periferias da capital federal, todos os índices educacionais, formativos, de segurança pública e raciais estariam em patamares ainda mais alarmantes”, avalia. “A Capital do Rock é também a Capital dos Manos.”
Quem também sobe ao palco representando a cena feminina local é a cantora Isa Marques. Para ela, o Meskla tem um papel que vai além da festa. “O Meskla é um espaço muito importante porque realmente apoia a cena local a ganhar visibilidade durante o festival e não esconde a gente atrás de headliners. Para mim, fazer parte disso fortalece muito minha caminhada e ajuda a dar visibilidade para mulheres que estão produzindo música autoral na cidade”, explica a artista em entrevista ao JBr.
Isa relata ainda o momento em que sentiu que sua música estava chegando em quem precisava. “Quando comecei a perceber pessoas se identificando com minhas músicas de uma forma muito verdadeira, principalmente mulheres negras, pessoas da comunidade LGBTQIAPN+ e pessoas do DF e entorno. Entendi que minha arte estava chegando exatamente onde precisava chegar”, diz.
A rapper Saphira também faz parte do grupo de artistas locais que ganham espaço no evento ao lado de nomes nacionais. Para ela, dividir o palco com Matuê e Felipe Ret é ao mesmo tempo reconhecimento e responsabilidade. “É um marco de reconhecimento e também de responsabilidade. Eu entendo tudo que está em jogo agora e também onde quero chegar. Dividir o palco com esses nomes só reafirma que estou no caminho certo”, comenta ao JBr.
Sobre sua performance, Saphira define com precisão: “Minha base é o rap, mas costumo trazer uma mistura de tudo que escuto. O palco para mim é um momento de respiro, é onde eu consigo ser eu mesma, porque ali eu existo.” E para as mulheres que ainda estão reunindo coragem para entrar na cena, o recado é direto: “Não esperem ser escolhidas, se escolham. A cena não é gentil e nunca vai ser. Você precisa ter peito para aguentar tudo que vem com essa decisão, mas acima de tudo não tenham medo e sim coragem, porque quando você tem coragem inspira outras que já tiveram medo também”, conclui a artista.
SERVIÇO
Festival Meskla 2026
16 de maio, sábado
Estacionamento Estádio Nacional Mané Garrincha
Ingressos: @r2com.vc
Mais informações: @festivalmeskla
Fonte: Jornal de Brasília