10/05/2026 – 11:00
O mercado de logística rodoviária no Brasil atravessa um dos momentos mais complexos e desafiadores da última década. O que deveria ser um período de acomodação natural de preços, com o encerramento da colheita da soja em diversas regiões, transformou-se em um cenário com alta permanente. O recente Boletim Logístico da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) informa que o escoamento da safra 2025/26 não apenas mantém os fretes pressionados, como estabelece um novo e elevado patamar de custos para toda a cadeia produtiva devido ao impacto da guerra no Oriente Médio.
O país se prepara para movimentar 356,3 milhões de toneladas de grãos, um recorde histórico que exige engenharia logística sem precedentes e expõe as fragilidades de um setor que opera no limite de sua capacidade operacional e financeira.
A análise técnica da estatal revela que o quadro logístico brasileiro rompeu com a dependência exclusiva do pico da soja. Hoje, o país vive o fenômeno da sobreposição de safras e a urgência da gestão de estoque. Com uma projeção de 179,2 milhões de toneladas apenas para a oleaginosa, os armazéns pelo interior do país estão operando com capacidade máxima. Essa saturação cria um efeito dominó: é preciso escoar a soja remanescente com rapidez para abrir espaço para o milho de segunda safra, estimado em 109,1 milhões de toneladas. Em estados vitais como Mato Grosso, essa dinâmica mantém a demanda por transporte, impedindo qualquer refresco nas tabelas de fretes, especialmente com a proximidade do mês de junho, quando o transporte de milho ganhará escala.
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Observando o detalhamento geográfico do raio-x das culturas, observa-se um comportamento heterogêneo, mas majoritariamente altista. Nas regiões onde a colheita foi precoce, como o médio-norte mato-grossense, houve um alívio apenas ‘cosmético’.
A rota Sorriso-Santos, por exemplo, viu o preço por tonelada recuar de R$ 520 para R$ 510 entre fevereiro e março. Contudo, o olhar atento aos dados anuais revela a gravidade: mesmo com essa queda mensal, o valor permanece 13% acima do praticado no mesmo período de 2025. Já no Vale do Araguaia, região de colheita tardia distribuída em estados do Centro-Oeste e Norte do país, o cenário é de escalada direta. Em Querência, em Mato Grosso, os fretes para portos estratégicos como São Luís, no Maranhão, e Barcarena, no Pará, saltaram entre 8% e 9,5% em apenas trinta dias para patamares entre R$ 460 e R$ 520, refletindo a entrada maciça de carga em um momento de oferta ajustada de caminhões.
O grande catalisador dessa pressão, entretanto, transcende o volume de grãos e reside no tanque de combustível. A disparada nos preços do diesel, acentuada pela instabilidade geopolítica no Oriente Médio, tornou-se o principal fator de risco para a sustentabilidade do transporte. Em Goiás, o Diesel S10 atingiu picos de R$ 7,89 por litro, uma alta superior a 25% em trinta dias. Diante do quadro, a Conab alerta para uma possível “inflexão de mercado”: se os custos continuarem subindo sem um realinhamento tarifário proporcional, uma parcela significativa dos agentes — especialmente os motoristas autônomos — pode ser forçada a sair da atividade. A saída de caminhões da frota ativa geraria um efeito cascata negativo, reduzindo a oferta de transporte e elevando ainda mais o patamar geral de preços no longo prazo.
A situação em praças como Catalão e Cristalina, em Goiás, exemplifica esse risco de apagão logístico. Com 90% da colheita concluída, o volume de carga disponível supera largamente a oferta de caminhões. Os transportadores autônomos, mais vulneráveis que as grandes empresas estruturadas, tornam-se seletivos, evitando rotas onde a rentabilidade é nula. No Distrito Federal, o cenário acompanha a tendência nacional de alta generalizada, com rotas para Paranaguá e Santos subindo até 12% em relação a fevereiro. O impacto chega com força ao Nordeste. Na Bahia, a redução de prestadores de serviço aliada ao custo do combustível elevou o frete de Luís Eduardo Magalhães para Salvador em 18%, atingindo R$ 290 por tonelada.
No Maranhão, o início do escoamento da soja no sul do estado trouxe um fluxo intenso para o Porto do Itaqui, mas o reajuste do diesel impediu alívio em custos de transporte para o produtor agrícola. Ao contrário, algumas rotas maranhenses registraram saltos de 23,3%.
Enquanto isso, no Mato Grosso do Sul, a pressão é mantida pela força das exportações, que ultrapassaram 1,2 milhão de toneladas em março, exigindo rotas de longa distância para os portos do Sudeste e Sul. Em suma, o Brasil logístico de 2026 é um organismo sob estresse contínuo. A eficiência do agronegócio, materializada em safras recordes, encontra seu maior obstáculo na porta das fazendas, onde o custo do quilômetro rodado e a incerteza sobre o preço do combustível ditam quem conseguirá levar o lucro até o porto.
Fonte: IstoÉ Dinheiro