Quando Carlo Ancelotti explicou por que não convocou Neymar, usou um argumento aparentemente incontestável: o atacante não está 100% fisicamente. Segundo o treinador, para vestir a camisa da seleção neste momento é preciso estar em plena forma.
A frase soa lógica, mas traz um problema prático. Se a exigência for realmente essa, Neymar dificilmente voltará à seleção brasileira. Aos 34 anos e depois de uma sequência pesada de lesões, é improvável que ele volte a atingir os 100% físicos de outros tempos. Isso simplesmente não acontece mais com jogadores dessa idade.
A história recente do futebol mostra que as grandes estrelas aprendem a conviver com percentuais menores. Lionel Messi foi campeão do mundo pela Argentina em 2022 longe do auge físico. Talvez estivesse a 70%. Foi mais do que suficiente. Cristiano Ronaldo deve disputar mais uma Copa por Portugal e certamente não estará no auge da forma. Ainda assim, continua sendo decisivo.
A pergunta inevitável é simples: se Neymar chegar a 60% ou 65% de sua melhor versão, ele ainda não seria melhor do que boa parte das opções ofensivas que o Brasil tem hoje?
Mas, se a matemática de Ancelotti parece rígida demais, também é verdade que Neymar precisa fazer a parte dele. O atacante reagiu nas redes sociais à ausência na convocação com um discurso de frustração e esperança.
“Vou falar aqui porque não dá para passar em branco. Obviamente estou chateado, triste, por não ter sido convocado, mas o foco continua. Dia após dia, treino após treino, jogo após jogo, nós vamos conseguir nosso objetivo. Ainda falta uma convocação final e o sonho continua.”
O problema é que, até agora, a prática não acompanha o discurso. Em 2026, Neymar fez apenas uma grande partida: contra o Vasco. Para um jogador de seu tamanho, é muito pouco.
Além disso, seguem circulando relatos de que ele não é exatamente o atleta mais aplicado nos treinamentos do Santos. Se isso for verdade, a frase “dia após dia, treino após treino” deixa de ser promessa e passa a soar como uma cobrança.
Há pouco tempo escrevi que Neymar vinha se tornando um atacante home office: aquele que aparece pouco em campo, mas permanece permanentemente em evidência fora dele. A convocação de Ancelotti traz um lembrete incômodo para o próprio jogador.
Se quiser disputar a Copa do Mundo, Neymar terá que abandonar o home office e voltar ao trabalho presencial dentro de campo.
E, ao mesmo tempo, Ancelotti talvez precise rever sua matemática. Porque esperar 100% de um craque de 34 anos pode ser tão irreal quanto imaginar que Neymar voltará a ser o jogador de 2015.
Talvez o caminho esteja em algum lugar entre os dois números. Um Neymar a 60% — mas comprometido — ainda pode ser melhor do que muita gente a 100%.
Fonte: Jornal de Brasília