16/03/2026 – 10:38
A inteligência artificial (IA) ganha autonomia e agora consegue realizar sozinha várias tarefas, mas segue sendo propensa a erros, um risco que várias empresas de seguros já aceitam cobrir para as empresas.
“A finalidade destas ferramentas avançadas de IA é prescindir da assistência e da supervisão humanas na tomada de decisões, o que questiona parte da lógica fundamental da cobertura de seguros existente”, explicou Phil Dawson, encarregado de IA da seguradora especializada Armilla.
Visto que os seguros normalmente são pensados para cobrir falhas humanas e não decisões de uma máquina, muitas empresas que criam ou usam a IA com maior grau de autonomia “nos consultam para adicionar seguros” complementares, explica.
Os novos assistentes de IA, chamados de agentes, não se limitam mais a responder uma pergunta. São capazes de realizar tarefas similares às de uma pessoa que usa um computador de forma autônoma e acelerada.
No entanto, ainda não eliminaram a possibilidade de erros como as “alucinações”, quando apresentam com total certeza um resultado inventado.
Em grande medida, os riscos de responsabilidade civil vinculados à IA foram cobertos implicitamente nas apólices de seguros, no que se denomina de “cobertura silenciosa”, avaliam a analista Sonal Madhok e a professora de direito Anat Lior em um documento publicado em 2025 pela empresa de corretagem Willis Towers Watson.
Esta situação, afirmam, é similar aos primeiros anos da criminalidade cibernética em larga escala.
Nos últimos meses, o mercado de seguros passou de uma postura de “esperar para ver” para uma muito mais agressiva, e as “apólices padrão agora incluem cláusulas denominadas ‘exclusão absoluta da IA’”, aponta Jonathan Mitchell, encarregado do setor financeiro na corretora Founder Shield.
Segundo o jornal Financial Times, seguradoras importantes, como a britânica Chubb, têm pedido aos reguladores americanos para poder excluir a responsabilidade relacionada com a IA de sua cobertura.
Contactadas pela AFP, nenhuma respondeu.
A inteligência artificial generativa é mais difícil de abordar por sua mutação constante.
“Para levar em conta a responsabilidade civil da IA, é preciso entrar muito a fundo nos detalhes do contrato”, admitiu Mitchell.
– Um mercado bilionário –
Phil Dawson mencionou o caso de uma imobiliária de salas comerciais que queria cobrir seu agente de IA como se fosse um funcionário. Por fim, contratou uma apólice específica para a inteligência artificial.
A Founder Shield oferece um seguro para erros e omissões (E&O), clássico para um provedor de serviços profissionais, mas que integra especificamente os cenários de “falha da IA ou alucinação”, que “geram uma perda financeira direta para o cliente”.
O alcance do contrato pode se estender para além das redes informáticas, aos danos causados pela IA no mundo real, informou Mitchell, como quando um agente virtual encomenda por engano mercadorias em excesso para uma empresa.
Antes de se comprometer a fornecer um seguro, Armilla submete os modelos a testes para avaliar suas vulnerabilidades.
E também analisa a gestão global de riscos dentro da empresa cliente e sua adesão a normas americanas ou internacionais no campo da IA.
As seguradoras no mercado excluem certos riscos.
A Armilla não cobre nada relacionado a diagnósticos médicos ou aplicativos focados na saúde mental.
A Munich Re, por sua vez, não indeniza a falha de um modelo caso este se deva a condições excepcionais do mercado, explica Michael von Gablenz, encarregado de seguros de IA, e dá como exemplo a taxação de obras de arte ou de ativos financeiros.
Os clientes atuais da Munich Re são, sobretudo, empresas tecnológicas que operam em setores como agricultura, indústria e energia. Tanto as companhias que desenham os modelos, quanto as que os usam podem se subscrever.
Para Von Gablenz, o potencial deste mercado “é tão importante quanto o da cibersegurança, e inclusive superior”.
A melhora contínua dos modelos reduz os desvios, mas “o risco de erros e de alucinações nunca poderá ser descartado por completo”, disse. “Seguem sendo modelos estatísticos”, que sempre apresentam “uma parte de incerteza”.
A consultoria Deloitte avaliou, em um estudo publicado em agosto, que o montante dos prêmios poderia chegar em escala mundial a 4,8 bilhões de dólares (aproximadamente R$ 25 bilhões, na cotação atual) até 2032.
Fonte: IstoÉ Dinheiro