15/03/2026 – 8:00
A crise do GPA, dono das marcas Extra e Pão de Açúcar, sinaliza também um momento de transformação do setor de varejo alimentar no país. A empresa entrou em recuperação extrajudicial nesta semana, informando uma dívida de R$ 4,5 bilhões a ser renegociada.
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Especialistas consultados pela IstoÉ Dinheiro apontam que anos de inflação e juros altos tornaram a população brasileira mais sensível a preço, e fortaleceram o atacarejo, modelo de comércio que mistura atacado e varejo.
A mudança fica evidente no ranking da Associação Brasileira de Supermercados (Abras) dos supermercados com maior faturamento no país. A última edição, publicada em abril de 2025 e com dados referentes a 2024, mostra o GPA na 5ª posição, atrás do Supermercados BH, Grupo Mateus, Assaí e do primeiro colocado, Grupo Carrefour.
Veja o ranking completo:
| # | Empresa | Faturamento (R$) |
| 1º | Grupo Carrefour Brasil | 120,6 bi |
| 2º | Assaí Atacadista | 80,6 bi |
| 3º | Grupo Mateus | 36,4 bi |
| 4º | Supermercados BH | 21,3 bi |
| 5º | GPA (Grupo Pão de Açúcar) | 20,0 bi |
| 6º | Grupo Muffato | 17,4 bi |
| 7º | Grupo Pereira | 15,3 bi |
| 8º | Mart Minas & Dom Atacadista | 11,4 bi |
| 9º | Cencosud Brasil | 11,2 bi |
| 10º | Grupo Koch | 10,3 bi |
| 11º | Plurix | 9,4 bi |
| 12º | Companhia Zaffari | 8,4 bi |
| 13º | DMA Distribuidora | 8,3 bi |
| 14º | Tenda Atacado | 7,4 bi |
| 15º | Costa Atacadão | 7,3 bi |
| 16º | Savegnago Supermercados | 6,9 bi |
| 17º | Atacadão Dia a Dia | 6,0 bi |
| 18º | Sonda Supermercados | 5,9 bi |
| 19º | Novo Atacarejo | 5,8 bi |
| 20º | Comercial Zaffari | 5,7 bi |
| 21º | Grupo Líder | 5,3 bi |
| 22º | Supermercados Andreazza | 5,2 bi |
| 23º | Grupo ABC | 4,9 bi |
| 24º | Grupo Supernosso | 4,7 bi |
| 25º | Supermercados Bahamas | 4,3 bi |
| 26º | Zaragoza (Spani Atacadista) | 4,2 bi |
| 27º | Giassi Supermercados | 4,1 bi |
| 28º | Roldão Atacadista | 4,0 bi |
| 29º | Pague Menos | 3,9 bi |
| 30º | Angeloni | 3,8 bi |
A ascensão do atacarejo
Mistura de atacado com varejo, o segmento “atacarejo” dispensa embalagens enfeitadas, variedade de produtos premium e boa apresentação nas prateleiras. Ao invés disso, o cliente encontra bons preços e promoções para compra em grande quantidade, que atraem, inclusive, comerciantes de pequenos mercados de bairro.
“A escala operacional é o grande motor para que essas grandes varejistas se destaquem. Com essa escala é possível que esses grupos consigam adequar seu modelo de negócio ao ambiente econômico do momento”, analisa o economista Caio Mitsuo, especialista em investimentos e MBA em Finanças pela B7 Business School.
Campeão no ranking da Abras, o Carrefour conta com uma estratégia multiformato, atendendo também com a marca de atacarejo Atacadão. “Essa diversidade permite capturar diferentes perfis de cliente e gera escala que reduz custos logísticos e de suprimentos”, explica o analista-chefe da Cultura Capital, Gabriel Uarian.
O Assaí opera em um formato “atacarejo puro”. Segundo Uarian, a empresa expandiu agressivamente nos últimos anos, abrindo lojas em pontos estratégicos e alcançando um caixa forte, ainda que com margens menores.
Outra tradicional do atacarejo, o Grupo Mateus foca no Nordeste, onde se posiciona de acordo com preferências regionais e expande através de aquisições. Em uma estratégia similar, o Supermercados BH, apesar de não operar atacarejo, também aposta em grande afinidade com os consumidores de Minas Gerais, crescendo com eficiência em um espaço mais restrito.
A crise do GPA
O especialista em renda variável da Davos Investimentos, Marcelo Boragini, recorda que os problemas do grupo GPA não são recentes, e foram agravados durante tentativas de reorganização dos negócios nos últimos anos. A escalada dos juros atrapalhou ainda mais, aumentando o custo de crédito e o endividamento da empresa.
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“Além da mudança do perfil do consumidor e da concorrência mais forte, o GPA enfrenta desafios internos importantes. Os processos de reestruturação estratégica são mais pesados e pressionam margens em um setor que já opera com uma rentabilidade relativamente baixa”, analisa Boragini.
Na tentativa de contornar a crise, o GPA reduziu operações e fechou lojas nos últimos anos. Em 2021, quando ainda operava sob controle do grupo francês Casino, a empresa se desfez da marca Assaí, uma estratégia equivocada de acordo com os analistas.
“O grupo apostou em bandeiras premium como o Pão de Açúcar e em formatos de proximidade. No entanto, o mercado migrou para preço agressivo, e o GPA ficou preso no meio: caro demais para quem busca atacarejo, mas sem o glamour exclusivo que justifica o prêmio em tempos de bolso apertado”, comenta Gabriel Uarian.
Com a expectativa de uma continuidade do crescimento do atacarejo, o GPA terá de criar estratégias para ganhar maior rentabilidade. Solucionar a dívida que o levou a recuperação extrajudicial é apenas parte do caminho até lá.
Fonte: IstoÉ Dinheiro